Os sistemas avac vivem de um equilíbrio discreto: ar, água, energia e controlo a trabalharem em silêncio para que um edifício funcione. A previsão de falhas deixa de ser “coisa de manutenção” quando percebemos o custo de um colapso - conforto perdido, paragens de produção, equipamentos danificados e chamadas de emergência em horas impossíveis. O problema é que a falha rara vez avisa com um alarme óbvio; avisa com pequenos desvios que parecem “normal do inverno” ou “calor estranho de agosto”.
Eu aprendi a reconhecer esses sinais no sítio menos romântico: ao lado de uma UTA a vibrar como se estivesse com pressa, num corredor técnico que cheira a poeira morna. Tudo parecia a funcionar, mas o edifício já estava a mudar de humor. A diferença entre apanhar o problema cedo e chegar tarde costuma ser um detalhe que alguém ignorou porque “ainda dá”.
Quando o sistema começa a falar (antes de gritar)
Os primeiros alertas quase sempre são de comportamento, não de avaria total. O sistema faz o que sempre fez, só que com mais esforço: ventoinhas a compensar, válvulas a caçar o setpoint, compressores a ciclar sem descanso. Se olhares para os dados (ou para o que as pessoas se queixam), há uma espécie de padrão elástico: hoje está bem, amanhã está “esquisito”, depois volta ao normal - até deixar de voltar.
A boa notícia é que estes sinais são rastreáveis. A má é que eles são fáceis de desculpar, porque parecem ruído do dia-a-dia.
Top sinais de falha iminente em sistemas AVAC
Pensa nisto como um checklist de “presságios práticos”. Não é para dramatizar - é para evitar que uma semana de pequenas anomalias vire uma paragem grande.
1) Ciclos curtos e repetidos (liga/desliga a mais)
Se o compressor, a bomba de calor ou a caldeira entram em short cycling, há algo fora do sítio: controlo, sonda, caudal, carga térmica, ou até falta de gás (no caso de refrigeração). O consumo sobe e o desgaste dispara, porque cada arranque é um pequeno impacto no equipamento.
O sinal humano é simples: “às vezes está ótimo, outras vezes fica logo desconfortável”, com ruído de arranques frequentes.
2) Desconforto “em manchas”: zonas quentes e frias no mesmo piso
Quando o edifício deixa de ser homogéneo, o problema raramente é “falta de potência” apenas. Pode ser desequilíbrio de caudais, filtros saturados, difusores obstruídos, válvulas de zona presas, ou VAVs fora de calibração.
O detalhe importante é a mudança de padrão: se uma sala que era estável passa a ter picos, isso é o sistema a perder controlo fino.
3) Aumento silencioso do consumo energético
Este é o sinal mais barato de detetar e um dos mais caros de ignorar. Se a fatura (ou o contador) sobe sem motivo óbvio - ocupação igual, horários iguais, clima semelhante - o sistema está a compensar ineficiências: permutadores sujos, caudais errados, setpoints desalinhados, ou equipamentos a trabalhar fora do ponto.
Aqui, a previsão de falhas começa com uma pergunta simples: “o que mudou no perfil de energia quando nada mudou no edifício?”
4) Pressões/temperaturas “a serrar”: tendências instáveis nos gráficos
No BMS, isto aparece como linhas que deviam ser suaves e são dentes de serra. Acontece muito em: - laços PID mal afinados, - válvulas que não modulam bem, - sondas com leitura errática, - ar no circuito hidráulico.
Não é um “alarme vermelho”, mas é um motor a trabalhar nervoso. E motores nervosos duram menos.
5) Ruído novo, vibração nova, ou vibração que migra
Uma ventoinha pode sempre fazer algum ruído. O que interessa é a novidade: um zumbido que antes não existia, uma vibração que se sente na estrutura, ou um som que aparece em certos regimes.
Isto costuma apontar para rolamentos, desalinhamento, correias, desequilíbrio do rotor, ou fixações a ceder. É o tipo de falha que dá janela para agir - até ao dia em que deixa de dar.
6) Humidade fora de controlo (ou condensação onde nunca houve)
Se surgem vidros a embaciar, cheiro a mofo, ou condensação em condutas/UTAs, não é só desconforto: é risco de corrosão, fungos e degradação de isolamentos. Em sistemas avac, humidade “a mais” ou “a menos” é muitas vezes sinal de: - drenagens entupidas, - recuperação de calor a falhar, - má gestão de renovação de ar, - serpentina suja a reduzir capacidade de desumidificação.
Quando o edifício começa a “cheirar diferente”, vale ouro investigar.
7) Alarmes intermitentes e “resets” que viram rotina
Um alarme que aparece e desaparece é tentador: faz-se reset, segue. Mas alarmes intermitentes costumam ser o prelúdio perfeito para falhas difíceis, porque escondem a causa raiz: mau contacto, sonda a morrer, proteção térmica a disparar, falha de comunicação, ou limites operacionais a serem tocados em dias mais extremos.
Se alguém já diz “isso às vezes acontece”, está na altura certa para atuar.
O que fazer nas próximas 72 horas (sem inventar moda)
Não precisas de transformar isto num projeto de seis meses. Precisas de uma sequência curta e disciplinada que traga o sistema de volta ao “comportamento previsível”.
- Verifica filtros, correias, drenagens e permutadores (o básico que muda tudo).
- Compara tendências: temperaturas de ida/retorno, pressões, correntes dos motores, horas de funcionamento e número de arranques.
- Confirma sondas e setpoints: uma sonda a mentir 2 °C cria um edifício inteiro a compensar.
- Procura a causa, não o sintoma: se há short cycling, pergunta “porquê” duas vezes antes de trocar peças.
“O sistema quase nunca falha de repente. Ele vai-se afastando do bom funcionamento até alguém lhe chamar ‘normal’.”
Pequeno mapa de sinais → causas prováveis
| Sinal observado | O que costuma indicar | Próximo passo útil |
|---|---|---|
| Ciclos curtos | Controlo/caudal/carga, falta de gás | Rever tendências e proteções, medir caudais |
| Zonas instáveis | Desequilíbrio de ar/água, VAV/ válvulas | Balanceamento, calibração, inspeção de atuadores |
| Consumo a subir | Sujidade, setpoints, equipamento fora do ponto | Análise energética e limpeza/afinação |
FAQ:
- Como sei se é “clima” ou falha iminente? Se o desconforto e o consumo mudam sem mudança proporcional no clima/ocupação, trata como anomalia e olha para tendências no BMS.
- Qual é o sinal mais subestimado? O aumento do número de arranques e paragens. É desgaste acelerado disfarçado de normalidade.
- Vale a pena investir em previsão de falhas num edifício pequeno? Sim, sobretudo se tiveres histórico de avarias em horas críticas. Mesmo regras simples com dados de consumo e alarmes reduzem chamadas de emergência.
- O que devo registar para detetar cedo? Consumo, horas de funcionamento, número de arranques, temperaturas (ida/retorno e insuflação), pressões e alarmes com timestamp.
- Quando devo parar o equipamento e chamar assistência? Se houver cheiro a queimado, proteção térmica a disparar repetidamente, vibração forte crescente, ou condensação a pingar para zonas elétricas. Segurança primeiro.
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