A maioria dos edifícios não “piora” de um dia para o outro; vão é ficando mais difíceis de manter confortáveis. É aí que os sistemas avac começam a perder fôlego em silêncio, e a degradação do sistema transforma-se em contas mais altas, mais queixas e mais avarias fora de horas. Se gere um espaço (ou paga a energia dele), isto importa porque a eficiência não é um estado-é um hábito que se desgasta.
Já vi o padrão vezes sem conta: no início tudo parece afinado, o conforto é estável, e a manutenção é “quando der”. Depois chegam os pequenos compromissos-um setpoint ajustado para calar uma reclamação, um filtro adiado, uma válvula que fica presa mais um mês-e o sistema aprende a funcionar com atrito.
Quando a eficiência começa a escorregar (e quase ninguém repara)
A perda raramente vem de um único culpado. É uma soma de microperdas: ar que não devia misturar-se, água que circula a mais, sensores que “mentem” por deriva, ventiladores a trabalhar contra filtros sujos, e controlo automático que deixa de ser automático.
O problema é que o conforto ainda pode parecer aceitável… durante algum tempo. Só que, por trás, os kW sobem, os arranques multiplicam-se e a capacidade útil encolhe. A eficiência não cai com estrondo; cai com rotina.
Top fatores que reduzem a eficiência ao longo do tempo
1) Filtros e permutadores sujos: o atrito que custa dinheiro
Um filtro carregado aumenta a perda de carga e obriga ventiladores a subir rotações. Um permutador sujo reduz a troca térmica e empurra o sistema para tempos de funcionamento mais longos, como se o edifício tivesse “engordado” sem avisar.
O sinal típico é simples: mais ruído de ventilação, menos caudal nas pontas, e maior dificuldade em manter a temperatura nas horas de pico. Não é glamour, mas é dos maiores drenos de eficiência por euro investido.
2) Setpoints e horários “esticados”: conforto por excesso
Há um momento clássico em que alguém pede “só mais um bocadinho de frio” ou “deixe ligado até mais tarde”. E fica. Depois outro piso faz o mesmo. E, quando se dá por ela, o sistema está a climatizar horas vazias e a perseguir temperaturas demasiado agressivas para a ocupação real.
Isto cria um efeito dominó: mais consumo, mais desgaste, e mais probabilidade de simultaneidade absurda (aquecer e arrefecer em zonas diferentes). A eficiência desaparece porque o sistema passa a servir hábitos, não necessidades.
3) Sensores fora de calibração e deriva de medição
Um sensor de temperatura com 1–2 °C de erro não parece grave. Mas no controlo é como conduzir com o volante desalinhado: compensa-se sempre, e nunca se chega bem ao sítio.
Com o tempo, vê-se em ciclos curtos, válvulas a “caçar”, e salas que alternam entre quente e frio sem razão clara. Muitas “avarias” são só medições erradas a mandar ordens erradas.
4) Caudais desequilibrados (ar e água): o sistema perde o mapa
À medida que se fazem intervenções, mudam-se difusores, fecham-se registos, acrescentam-se equipamentos, e o balanceamento inicial deixa de refletir a realidade. O resultado é um AVAC a gastar energia para empurrar caudal para onde ninguém o quer, enquanto as zonas críticas ficam curtas.
Num circuito de água, bombas trabalham contra estrangulamentos; no ar, ventiladores compensam com pressão. Em ambos, paga-se duas vezes: em energia e em desconforto.
5) Refrigerante, fugas e carga incorreta (em sistemas de expansão direta)
Uma carga incorreta reduz capacidade e COP, aumenta a temperatura de descarga, e acelera desgaste do compressor. A fuga pode ser lenta o suficiente para passar meses “tolerável”, até deixar de ser.
O sintoma prático é o pior tipo: parece falta de potência “do nada”, e o sistema começa a trabalhar mais horas para entregar menos.
6) Ventilação mal ajustada: ou a mais, ou a menos
Ventilar a mais é aquecer/arrefecer ar exterior desnecessariamente. Ventilar a menos é criar queixas, humidade, e decisões apressadas (abrir janelas, desligar unidades, improvisar).
A eficiência vive no ponto certo, e esse ponto muda com ocupação, uso do espaço e estação do ano. Quando a ventilação não acompanha, o sistema entra em esforço para compensar o que o ar devia resolver.
7) Controlo e automação desatualizados (BMS “a fazer de conta”)
Muitos edifícios têm um BMS que regista alarmes, mas não otimiza. Sequências de controlo ficam antigas, parametrizações não são revistas, e funcionalidades (free cooling, reset de setpoints, controlo por ocupação) ficam desligadas “até se ter tempo”.
Com o tempo, o sistema passa a operar em modo manual disfarçado. E manual, em AVAC, costuma significar conservador e caro.
8) Manutenção reativa e peças a chegar ao fim
Correias, rolamentos, atuadores, válvulas de controlo: quando começam a falhar, raramente falham de forma limpa. Perdem desempenho primeiro. Um ventilador desalinhado consome mais; uma válvula presa obriga a compensações; um atuador lento cria instabilidade.
A degradação do sistema aqui é muito literal: mais atrito mecânico, mais energia para o mesmo resultado, e mais paragens inesperadas.
O “ponto de viragem”: sinais de que já está a perder eficiência
Há um instante em que o edifício começa a pedir mais atenção do que devia. Não é drama; é repetição. O mesmo piso reclama. O mesmo equipamento entra em alarme. A mesma fatura vem um pouco acima.
Procure estes padrões, porque são mais fiáveis do que uma única leitura:
- Horas de funcionamento a aumentar sem mudança de ocupação.
- Ciclos curtos (liga/desliga frequente) em compressores ou caldeiras.
- Diferenças de temperatura maiores entre zonas semelhantes.
- Alarmes recorrentes “resolvidos” com reset.
- Consumo a subir em dias meteorologicamente comparáveis.
O que fazer primeiro (sem transformar isto num projeto infinito)
Não precisa de começar por um retrofit grande. Comece por recuperar o básico que o tempo desfaz, porque aí a eficiência volta mais depressa.
Três “âncoras” que normalmente pagam o esforço:
- Rever horários e setpoints (incluindo arranques antecipados e “exceções” esquecidas).
- Confirmar medições críticas (temperaturas de ida/retorno, CO₂, pressões, sondas em UTA/chillers).
- Limpar e desobstruir o caminho (filtros, permutadores, grelhas, drenos, correias e alinhamentos).
“A maior poupança não vem de um truque novo. Vem de deixar o sistema voltar a fazer bem o que já sabia fazer.”
| Fator | O que provoca | Impacto típico |
|---|---|---|
| Sujidade e obstruções | Mais pressão/menos troca térmica | kWh ↑, conforto ↓ |
| Controlo mal parametrizado | Horas e setpoints desajustados | Consumo ↑, ciclos ↑ |
| Medição e balanceamento | Decisões erradas do sistema | Queixas ↑, desgaste ↑ |
FAQ:
- O que costuma degradar mais depressa a eficiência em sistemas avac? Filtros/permutadores sujos, horários alongados e sensores a derivar. São pequenos, mas constantes.
- Como sei se é “falta de potência” ou degradação do sistema? Se antes funcionava e agora precisa de mais horas/mais esforço para o mesmo conforto, é quase sempre degradação (sujidade, caudais, controlo, carga de refrigerante).
- Vale a pena recalibrar sensores? Sim, sobretudo os que comandam setpoints e modos (temperatura exterior, ida/retorno, CO₂). Um erro pequeno pode gerar operação cara durante meses.
- O BMS resolve isto sozinho? Não. Sem revisão de sequências e comissionamento contínuo, o BMS apenas regista o problema; não o corrige.
- Qual é o primeiro indicador a acompanhar mensalmente? Horas de funcionamento por equipamento e consumo em dias comparáveis. Eficiência a cair aparece aí antes de virar avaria.
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