A avaria aparece sempre do mesmo modo: um vizinho queixa-se do “zumbido”, a parede começa a suar e a conta da luz sobe como se o apartamento tivesse crescido mais um quarto. No centro disto está a instalação de ar condicionado - e, quase sempre, uma coleção de erros de instalação pequenos, comuns e caros.
Num prédio, nada existe em vazio. Há ruído que atravessa lajes, fachadas com regras, condutas partilhadas e um condomínio que repara tarde, mas repara. Um AC bem instalado é conforto silencioso; um AC mal instalado é um problema que chama outros.
Os erros que parecem “detalhes” (e viram chamadas de assistência)
Há uma tentação típica: “é só furar, pendurar e ligar”. Em apartamentos, essa pressa paga-se em vibração, drenagens mal feitas e máquinas a trabalhar fora do ponto. A maior parte das falhas não nasce de má vontade, mas de decisões rápidas sem medições nem plano.
Pense nisto como um sistema com três fragilidades: localização, drenagem e dimensionamento. Quando uma falha se junta a outra, o resultado não é apenas menos frio - é humidade, corrosão, desconforto e ruído que se torna assunto do andar de baixo.
1) Escolher mal o local das unidades (interior e exterior)
A unidade interior fica “onde dá jeito”, e depois sopra direto para o sofá ou para a cama. A sensação é de corrente de ar, garganta seca e um termóstato que nunca parece acertar. O conforto em AC é mais distribuição do que potência.
A unidade exterior, por sua vez, é muitas vezes encostada a paredes, resguardada “para não se ver”, ou colocada num sítio onde não respira. Sem folgas para entrada e saída de ar, o compressor trabalha mais, aquece mais e dura menos. E quando fica perto de quartos (seus ou do vizinho), o ruído deixa de ser técnico e passa a ser social.
O que costuma falhar aqui: - Sem distância mínima a paredes/tetos (recirculação de ar quente). - Jato de ar apontado para zonas de permanência. - Fixação em varandas fechadas ou marquises sem ventilação.
2) Ignorar a drenagem de condensados (e criar “chuva” dentro de casa)
O ar condicionado tira humidade ao ar; essa água tem de ir para algum lado, sempre, todos os dias. Um dos erros de instalação mais frequentes é tratar a drenagem como um pormenor: mangueira curta, inclinação insuficiente, sifão inexistente ou passagem improvisada.
O resultado aparece devagar. Primeiro, cheira a mofo. Depois, pinga. Numa noite húmida, a bandeja enche, o escoamento não acompanha e a parede começa a manchar. Em apartamentos, a água não respeita frações: infiltra-se, escorre, aparece no vizinho de baixo e transforma uma instalação barata numa reparação cara.
Sinais de alerta: - Tubo sem declive contínuo (faz “barriga”). - Escoamento para um ponto onde pode haver retorno de odores. - Gotejamento só em dias muito quentes/húmidos (drenagem no limite).
3) Dimensionar “a olho” (demasiado grande ou demasiado pequeno)
Há quem peça “o mais forte” para garantir, e há quem tente poupar escolhendo o mínimo. Os dois extremos dão mau resultado. Um AC sobredimensionado arrefece depressa mas desliga cedo, não desumidifica bem e cria um frio desconfortável e irregular. Um AC subdimensionado trabalha sem parar, consome mais e nunca chega ao ponto desejado.
Em apartamentos, a carga térmica muda com exposição solar, vidros, isolamento e até o piso. Uma sala virada a poente não se comporta como uma sala interior, mesmo com a mesma área. O cálculo não precisa de ser um tratado, mas precisa de existir.
Antes de decidir potência, confirme: - Área e pé-direito reais (não “aproximados”). - Orientação solar e sombreamentos. - Número de divisões a servir (e portas abertas/fechadas no uso normal).
4) Fazer percursos de tubagem longos e cheios de curvas
Quando a estética manda mais do que a técnica, surgem linhas frigoríficas a dar voltas pela casa. Cada metro extra e cada curva acrescentam perda, risco de vibração e pontos de condensação. Além disso, calhas mal colocadas ou mal vedadas viram corredores de poeira e humidade.
Há também um erro silencioso: isolamento insuficiente na tubagem. Se o isolamento é fraco, forma-se condensação por fora e você jura que “a parede está a transpirar”. Não é a parede. É a instalação.
5) Falhar na fixação e antivibração (o ruído que ninguém esquece)
O ruído em apartamento é o gatilho mais rápido para conflitos. Suportes fracos, buchas erradas para o tipo de parede, ausência de tacos antivibração ou uma unidade exterior desnivelada transformam um aparelho normal numa máquina de ressonância. E o som não fica na varanda; viaja pela estrutura.
O pior é que, muitas vezes, o problema só aparece semanas depois, quando o metal “assenta”, os parafusos relaxam e o compressor começa a trabalhar mais tempo no pico do verão.
Boas práticas simples que evitam isto: - Suportes dimensionados e próprios para fachada/varanda. - Elementos antivibração adequados ao peso do equipamento. - Verificação de nivelamento e reaperto após alguns dias de uso.
6) Deixar a parte elétrica para “desenrascar”
Extensões, tomadas sobrecarregadas e circuitos sem proteção adequada são um clássico perigoso. Um AC puxa corrente a sério, sobretudo no arranque. Em prédios mais antigos, o quadro elétrico e a secção de cabos podem não estar preparados para um equipamento novo.
Aqui o erro não é só “não funciona bem”. É risco de disparos constantes, aquecimento de cabos, danos no equipamento e, no limite, incêndio. Se há um ponto onde não compensa improvisar, é este.
Como acertar à primeira: um mini-checklist antes de furar a parede
A instalação de ar condicionado num apartamento fica boa quando alguém trata o local como um sistema: ar, água, ruído e regras do edifício. Antes de fechar a decisão, peça que lhe expliquem o plano de forma simples e verificável. Se a resposta for vaga, é aí que nascem os problemas.
- Confirmar localizações com folgas de ventilação e percurso curto de tubagem.
- Garantir drenagem com declive contínuo e descarga apropriada.
- Definir potência com base em área, orientação e isolamento (não em “achismos”).
- Planeamento elétrico com circuito/proteções adequados.
- Fixação com antivibração e atenção ao ruído para vizinhos.
| Erro comum | Consequência | O que pedir ao instalador |
|---|---|---|
| Drenagem mal inclinada | Pingos, manchas, mofo | Teste de escoamento e declive contínuo |
| Unidade exterior sem “respirar” | Consumo alto, avarias | Folgas mínimas e local ventilado |
| Potência mal escolhida | Desconforto e custos | Critérios de cálculo (área, sol, isolamento) |
FAQ:
- É obrigatório pedir autorização ao condomínio para instalar a unidade exterior? Depende do regulamento do condomínio e das regras municipais/da fachada. Em muitos prédios, alterar a fachada requer aprovação; vale confirmar antes para evitar pedidos de remoção.
- Porque é que o ar condicionado pinga só em alguns dias? Normalmente por drenagem no limite (pouco declive, obstrução parcial) e picos de humidade. Quando a produção de condensados aumenta, o sistema deixa de dar vazão.
- Vale a pena instalar numa marquise fechada? Só se houver ventilação suficiente para a unidade exterior “respirar”. Caso contrário, ela recircula ar quente, perde eficiência e encurta a vida útil.
- Um aparelho mais potente gasta sempre mais? Não necessariamente, mas sobredimensionar pode piorar conforto e desumidificação (liga/desliga frequente). O ideal é potência adequada ao uso e ao espaço.
- Que sinais indicam má instalação logo no primeiro mês? Ruído anormal, cheiros a mofo, pingos, parede húmida, disjuntores a disparar, e dificuldade em manter temperatura estável mesmo com portas fechadas.
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