A escolha da potência parece um detalhe técnico, mas é onde muita gente se engana - e paga por isso durante anos. Nos sistemas de ar condicionado, o planeamento de capacidade é o que separa uma casa confortável de um equipamento que “nunca chega lá” ou que liga e desliga sem parar. E o mais frustrante é que os erros mais comuns nascem de regras simples demais para um problema que é tudo menos simples.
Normalmente começa com uma frase inocente: “Mete um de 12.000 BTU, chega bem.” Diz-se isto numa loja, num grupo de família, ou por conselho de um amigo que “tem igual”. Depois vem o verão a sério, a sala que não arrefece, a conta da luz que sobe, e aquela sensação de que o ar condicionado está sempre a trabalhar… sem ganhar.
O mito do “BTU por metro quadrado” (e porque falha)
A regra rápida dos BTU por m² é útil como ponto de partida, não como decisão final. Ignora a orientação solar, o isolamento, as janelas, o pé-direito, o número de pessoas e até a forma como a casa é usada. Um T1 sombrio e bem isolado pode precisar de menos do que um open space virado a poente com portas de correr.
Quando se escolhe a potência só com base na área, o erro aparece em dois formatos: subdimensionamento (não chega) ou sobredimensionamento (não estabiliza). Em ambos os casos, o desconforto vem acompanhado de desperdício.
Erro 1: pensar que “mais potente” é sempre melhor
Sobredimensionar parece prudente: “assim sobra”. Na prática, um equipamento demasiado potente arrefece rápido demais e corta antes de desumidificar como deve ser. O resultado é uma divisão fresca por minutos e húmida durante horas, com sensação pegajosa e, em casos piores, condensação e cheiros.
Também há o efeito de arranque constante (curto-ciclo). Mais picos de consumo, mais desgaste e uma temperatura menos estável. O conforto não é só graus no visor; é estabilidade e humidade controlada.
Sinal típico em casa
- Arrefece “a jato”, mas passado pouco tempo volta a ficar desconfortável.
- Liga e desliga muitas vezes em períodos curtos.
- A divisão cheira a fechado ou a “humidade”, mesmo com temperatura baixa.
Erro 2: subestimar o sol (orientação e envidraçados)
Uma janela grande virada a sul ou poente pode mandar por terra qualquer cálculo simplificado. Vidro deixa entrar carga térmica, e estores nem sempre resolvem tudo, sobretudo em horas de pico. Se a divisão apanha sol direto, a potência necessária sobe - às vezes mais do que se imagina.
O mesmo vale para cozinhas abertas para salas: calor de forno, placa e pessoas a circular aumenta a carga. E é aí que se vê a diferença entre “funciona” e “funciona bem”.
Erro 3: ignorar o isolamento e as infiltrações de ar
Antes de comprar mais BTU, vale a pena perceber para onde está a ir o frio. Caixilharias antigas, caixas de estore sem isolamento, portas com frestas e paredes sem corte térmico fazem o ar condicionado trabalhar como se estivesse a arrefecer a rua.
Este erro é traiçoeiro porque parece que o equipamento “não presta”. Muitas vezes, ele está apenas a compensar perdas permanentes.
Mini-checklist de perdas (5 minutos)
- Passa ar pela caixilharia quando há vento?
- A caixa de estore está fria/quente ao toque em dias extremos?
- A porta fecha bem ou fica uma luz por baixo?
- Há divisões que “puxam” o ar (corredores longos, escadas)?
Erro 4: escolher potência para “a casa toda” com uma única unidade
Uma única split numa sala pode melhorar a sala - mas não transforma automaticamente quartos distantes em zonas confortáveis. O ar frio não faz curvas com boa vontade; precisa de percurso e retorno de ar. Se as portas ficam fechadas (como acontece à noite), o efeito noutros espaços é quase simbólico.
Aqui entra o planeamento de capacidade no sentido mais prático: definir zonas, hábitos e horários. Às vezes, duas unidades mais pequenas (bem colocadas) são mais eficientes do que uma grande a tentar fazer milagres.
Erro 5: esquecer o pé-direito e o volume real
Dois espaços com 20 m² podem ter necessidades muito diferentes se um tiver 2,40 m e outro 3,20 m de altura. O ar condicionado está a lidar com volume de ar, não com área pintada no chão. Tetos altos, mezaninos e escadas abertas para pisos superiores aumentam a carga e complicam a estabilidade térmica.
Se há desníveis e “fugas” para cima, a potência pode precisar de ajuste - ou a estratégia pode passar por ventilação de apoio e melhor distribuição.
Erro 6: não contar pessoas e equipamentos (a carga interna)
Parece detalhe, mas não é: pessoas aquecem. Computadores, TVs grandes, routers, aquários, iluminação forte e, claro, cozinha aberta, somam calor ao longo do dia. Uma sala usada por uma pessoa em teletrabalho não é a mesma sala com quatro pessoas, televisão ligada e jantar no fogão.
Se a divisão é “de estar” a sério, trate-a como tal no dimensionamento. Potência insuficiente nestes cenários dá a sensação de luta constante.
Erro 7: confundir potência (kW/BTU) com eficiência (SEER/SCOP)
Potência é “quanto consegue entregar”. Eficiência é “quanto gasta para entregar”. Dá para errar nos dois lados: comprar potência a mais e eficiência fraca, ou potência certa mas com consumo desnecessário.
A escolha equilibrada costuma ser: potência adequada + boa eficiência + instalação bem feita. Um equipamento eficiente instalado com tubagens mal dimensionadas ou com fuga de gás perde a vantagem rapidamente.
O que fazer em vez de adivinhar: um dimensionamento simples, mas realista
Não precisa de transformar isto num projeto de engenharia, mas precisa de mais do que uma conta no guardanapo. O ideal é pedir a um técnico um dimensionamento com base em cargas térmicas, ou pelo menos fornecer informação completa para uma recomendação séria.
O que ajuda, na prática: - Área e pé-direito (para estimar volume). - Orientação solar e tamanho das janelas. - Tipo de caixilharia e isolamento (se existe). - Número de ocupantes e uso típico (horários, portas abertas/fechadas). - Fontes de calor (cozinha, eletrónica, iluminação).
Um guia rápido de “sensação” para detetar erro de potência
- Demora muito a chegar ao conforto e nunca estabiliza: provável subdimensionamento ou perdas elevadas.
- Chega rápido mas fica húmido e instável: provável sobredimensionamento.
- Funciona bem só em dias amenos: potência no limite ou casa com carga solar alta.
- Consumo alto com pouco conforto: pode ser potência errada, eficiência baixa, instalação deficiente ou tudo junto.
A escolha certa é a que quase não se nota
O melhor elogio a um ar condicionado é este: “a casa está sempre bem” - sem ruído, sem picos, sem discussões por causa do comando. Quando a potência é bem escolhida, o equipamento trabalha de forma mais contínua e suave, desumidifica melhor e tende a durar mais.
E é por isso que o planeamento de capacidade vale o tempo que demora: não é sobre comprar “maior” ou “mais barato”. É sobre comprar o certo, para o seu espaço e para a sua vida.
FAQ:
- Qual é o erro mais caro: potência a menos ou a mais? Os dois podem sair caros, mas por motivos diferentes: a menos dá desconforto e funcionamento no limite; a mais dá curto-ciclo, humidade e desperdício por má estabilidade.
- Posso usar a regra de BTU por m² como decisão final? Não é recomendado. Use como estimativa inicial e ajuste por sol, janelas, isolamento, pé-direito e ocupação.
- Se a sala tem open space com cozinha, devo subir a potência? Muitas vezes sim, porque a carga térmica aumenta com equipamentos e uso. Um técnico pode confirmar com base no layout e hábitos.
- Duas unidades pequenas podem ser melhores do que uma grande? Sim, quando há várias zonas ou portas fechadas com frequência. Melhor distribuição costuma dar mais conforto e eficiência real.
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