Comprei sistemas de ar condicionado a achar que era “só escolher a potência” e seguir em frente. O problema é que os erros de compra raramente aparecem no dia da instalação; aparecem em Agosto, quando a casa não arrefece, e em Janeiro, quando a fatura não perdoa. O equipamento funciona, sim - mas funciona mal para o espaço, para o uso, ou para a expectativa que lhe pusemos em cima.
Há um tipo de arrependimento muito específico nisto: aquele em que se percebe que a decisão “mais barata” afinal ficou cara, e que a decisão “mais forte” afinal não trouxe conforto. O ar condicionado não é só máquina. É dimensionamento, hábitos, ruído, humidade, e a forma como o ar se move numa casa real, com portas abertas, sol a bater e pessoas a cozinhar.
Quando o “parece suficiente” se torna desconforto
O erro mais comum é comprar pelo instinto. Olhar para os metros quadrados, fazer uma conta rápida, escolher um modelo “equivalente” ao do vizinho e confiar que a marca resolve o resto. Depois vem o ciclo: liga, desliga, nunca estabiliza; ou trabalha sem parar e mesmo assim não chega lá.
Parte do problema é que o conforto é mais do que temperatura. É a sensação de ar parado, a humidade que cola à pele, o ruído que impede o sono. E o que decide isto não é só a etiqueta energética - é a escolha certa para aquele espaço, naquele padrão de uso.
Top decisões erradas na escolha do equipamento (e o que fazer em vez disso)
1) Escolher apenas pela potência “em BTU”
Potência a mais pode significar ciclos curtos, menos desumidificação e uma sensação de “frio húmido”. Potência a menos significa um compressor sempre a puxar, consumo alto e uma sala que nunca chega ao ponto.
O que fazer em vez disso: pedir dimensionamento com base em área, exposição solar, isolamento, pé-direito, número de ocupantes e ganhos internos (cozinha, eletrónica). Se a resposta do vendedor for “para 20 m² é sempre X”, desconfie.
2) Comprar pelo preço e ignorar instalação e materiais
Muita gente escolhe a máquina e deixa a instalação como um “extra”. É aqui que o barato sai caro: tubagem mal dimensionada, drenos com inclinação errada, isolamento fraco, suportes a vibrar, fugas de refrigerante.
O que fazer em vez disso: comparar orçamentos pelo conjunto (equipamento + instalação + materiais + garantia de mão-de-obra). Pergunte, sem vergonha, que marca e espessura tem a tubagem, se incluem bomba de condensados quando necessário, e como fazem vácuo e teste de estanquidade.
3) Ignorar o ruído - até ser tarde demais
Em loja, “20 dB” parece um número bonito. Em casa, no silêncio do quarto, um zumbido constante vira um problema de sono. Pior: vibrações do suporte ou da unidade exterior transmitem-se à parede.
O que fazer em vez disso: olhar para o ruído da unidade interior em modo noturno e para o ruído/pressão sonora da exterior, mas também exigir boa fixação e apoios antivibração. Se for para quarto, ruído e fluxo de ar valem quase tanto como potência.
4) Colocar a unidade “onde dá jeito”
Aparece muito: a unidade interior fica onde há tomada e onde a canalização “fica mais curta”. Depois o ar bate direto no sofá, não alcança o corredor, ou cria zonas quentes e frias como se a casa tivesse microclimas.
O que fazer em vez disso: pensar em circulação de ar e obstáculos. Uma instalação um pouco mais trabalhosa pode traduzir-se em conforto real: menos jatos diretos, melhor mistura do ar, menos necessidade de subir/descer setpoints.
5) Subestimar a humidade (e achar que é só temperatura)
Em cidades húmidas ou casas pouco ventiladas, o desconforto vem do ar pesado, não apenas dos graus. Um equipamento mal dimensionado ou usado em ciclos curtos tira menos humidade, e a casa continua “pegajosa”.
O que fazer em vez disso: procurar modos de desumidificação eficazes e, sobretudo, dimensionar bem para permitir funcionamento estável. Em alguns casos, faz mais sentido combinar com desumidificador dedicado ou melhorar ventilação/extração.
6) Escolher “multi-split porque sim”
Multi-split parece elegante: uma exterior, várias interiores. Mas há compromissos: limites de simultaneidade, perdas em tubagens, custos de reparação e dependência de uma única unidade exterior (se falha, falha tudo).
O que fazer em vez disso: escolher multi-split quando a fachada/condomínio limita exteriores ou quando faz mesmo sentido de uso. Caso contrário, dois monosplit bem escolhidos podem ser mais flexíveis, mais simples de manter e, por vezes, mais eficientes na prática.
7) Comprar sem pensar na manutenção
Filtros inacessíveis, falta de espaço para assistência, drenos difíceis de limpar. E depois a surpresa: cheiros, pingos, eficiência a cair devagar até parecer “normal”.
O que fazer em vez disso: garantir acesso fácil para limpeza, perguntar periodicidade de manutenção recomendada e custos típicos. E combinar desde o início um plano simples: filtros, higienização, verificação de drenos e carga.
“O meu erro foi achar que estava a comprar frio. Afinal estava a comprar conforto - e conforto é um sistema inteiro, não uma caixa na parede.”
- Leve para a loja/plano: área, orientação solar, tipo de caixilharia, pé-direito e quantas horas por dia vai usar.
- Peça dois cenários: um para uso pontual (picos) e outro para uso contínuo (inverter a trabalhar estável).
- Exija no orçamento: modelo exato, comprimento de tubagem incluído, extras (bomba, calhas), e condições de garantia.
A regra que evita metade dos arrependimentos
Se a decisão está a ser tomada com pressa, vai acabar a ser paga com tempo. Tempo a ajustar temperaturas, a discutir ruídos, a ligar para assistência, a procurar “truques” no YouTube. Um bom sistema quase desaparece: mantém o ambiente certo e não ocupa espaço mental.
A escolha certa é a que encaixa no seu dia-a-dia. Não no dia da compra, nem no dia da instalação, mas num Tuesday qualquer - com sol na janela, jantar no lume e gente a entrar e sair da sala.
| Erro típico | Sinal em casa | Correção prática |
|---|---|---|
| Potência mal dimensionada | liga/desliga frequente ou nunca chega ao setpoint | dimensionamento por cargas reais e uso |
| Instalação desvalorizada | ruído, pingos, baixa eficiência | exigir materiais, vácuo e testes no orçamento |
| Má colocação | jato direto, zonas quentes | reposicionar para melhor circulação |
FAQ:
- Como sei se preciso de mais potência? Se o equipamento trabalha longos períodos sem atingir o setpoint e a casa tem ganhos solares altos, pode estar subdimensionado - mas confirme primeiro isolamento, infiltrações e colocação.
- Vale a pena pagar por uma marca “premium”? Só vale se vier acompanhada de boa instalação e dimensionamento. Uma marca excelente mal instalada dá problemas na mesma.
- Multi-split é sempre melhor para várias divisões? Não. É ótimo quando há limitações de espaço exterior, mas pode reduzir flexibilidade e aumentar dependência de uma única unidade exterior.
- O que devo exigir num orçamento? Modelo exato, potência, classe energética, comprimento de tubagem, materiais, procedimento (vácuo/teste), extras e garantia de mão-de-obra.
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