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Quando o sistema parece funcionar, mas não funciona

Homem jovem trabalhando em eletrónica, com laptop e caderno na mesa, analisando circuito com multímetro.

Os sistemas avac estão por todo o lado: escritórios, hotéis, lojas, hospitais e até pequenos armazéns que “nunca tiveram problemas”. É precisamente aí que os problemas de desempenho se escondem melhor-quando a temperatura parece aceitável, o ruído é “normal” e ninguém quer mexer no que, à primeira vista, está a trabalhar. O custo aparece noutra moeda: conforto irregular, humidade fora de controlo, contas energéticas que sobem devagar e queixas que chegam em ondas.

Já vi este filme muitas vezes. A equipa de manutenção recebe um pedido vago (“a sala está abafada”), alguém confirma que o equipamento liga, o termóstato responde, e o assunto morre com um “está ok”. Só que o ok é um equilíbrio frágil: o sistema compensa com mais horas, mais arranques, mais esforço. E quando falha, falha no pior dia.

Quando “liga” não é o mesmo que “funciona”

Há uma diferença grande entre um sistema arrancar e um sistema entregar. Nos avac, o engano mais comum é confundir sinal com resultado: o ventilador roda, o compressor entra, a BMS mostra verde-mas o edifício continua desconfortável, ou a energia continua descontrolada, ou a qualidade do ar piora sem ninguém notar.

O que torna isto traiçoeiro é a sensação de normalidade. As pessoas habituam-se a pequenas variações, abrem uma janela, compram um desumidificador, mudam de secretária. O sistema “parece funcionar” porque o desconforto foi distribuído por micro-soluções humanas.

O outro truque é o calendário. No inverno ninguém dá conta da desumidificação deficiente. No verão ninguém repara que a renovação de ar está baixa. E, de repente, o problema não é técnico-é sazonal, intermitente e difícil de provar.

O momento em que se percebe (quase sempre tarde)

Normalmente, o clique acontece num dia específico. Uma sala cheia numa reunião longa. Um turno extra numa zona de produção. Um pico de humidade depois de chuva. A temperatura até pode estar “dentro do setpoint”, mas o ar está pesado e as queixas aumentam, não por capricho, mas porque o corpo sente o que o termóstato não mede.

Nessa altura, começam as frases típicas: “Mas o equipamento é novo”, “Isto sempre funcionou”, “O filtro foi trocado no mês passado”. São pistas, não conclusões. O sistema pode estar a cumprir uma parte e a falhar noutra: caudal, distribuição, controlo, ou simplesmente adequação ao uso real do espaço.

“O conforto não se avalia só pelo número no visor. Avalia-se pelo que as pessoas deixam de notar quando está bem.”

Três causas discretas que criam grandes desvios

Não é preciso um desastre para haver perdas. Muitas vezes basta um detalhe persistente que empurra o sistema para o esforço contínuo.

1) Caudal de ar errado (e ninguém mede)
Difusores sujos, registos mal afinados, filtros com perda de carga elevada, ventoinhas a trabalhar fora do ponto. A consequência não é só “menos ar”: é mistura pior, estratificação, zonas quentes e frias, e queixas que parecem aleatórias.

2) Sensores e setpoints “certinhos” mas fora da realidade
Sondas mal posicionadas, descalibradas, a apanhar sol, a ler retorno em vez de zona, ou a ser influenciadas por equipamento próximo. O sistema controla… só que controla o lugar errado. E depois compensa com ciclos, em vez de estabilizar.

3) Água, refrigerante e permutas com performance degradada
Baterias parcialmente obstruídas, válvulas de controlo presas, circuito hidráulico desequilibrado, nível/carga de refrigerante longe do ideal. O equipamento continua a “fazer frio” ou “fazer calor”, mas precisa de mais tempo e mais energia para chegar ao mesmo efeito.

Como diagnosticar sem entrar em caça ao tesouro

A tentação é saltar logo para “trocar a máquina” ou “mexer nos setpoints”. Quase sempre, vale mais seguir um percurso curto e verificável, com medições simples e comparáveis.

  • Confirmar o uso real do espaço: lotação, horários, cargas internas, portas abertas, equipamentos que foram adicionados. O sistema pode estar inocente e o contexto ter mudado.
  • Medir o que interessa (não só temperatura): CO₂ (renovação de ar), humidade relativa, caudal/pressão estática, temperaturas de insuflação e retorno. Um número isolado não conta a história.
  • Olhar para a estabilidade: quantos arranques por hora, quanto tempo em regime, variações ao longo do dia. Sistemas “nervosos” gastam mais e entregam menos.

Se isto soar trabalhoso, é porque é o contrário de adivinhar. E adivinhar é caro: cada ajuste cego cria um novo “parece melhor” que dura até ao próximo pico.

Pequenas correções que normalmente devolvem o sistema ao lugar

Quando o diagnóstico é limpo, as intervenções tendem a ser mais pequenas do que se imagina. O objetivo não é inventar um sistema novo-é parar a compensação permanente.

  • Reequilibrar caudais e verificar perdas de carga (filtros, baterias, condutas).
  • Rever posicionamento e calibração de sondas críticas (zona, retorno, exterior).
  • Ajustar sequências de controlo para evitar curto-ciclo (histerese, tempos mínimos, prioridades).
  • Verificar condições de permuta: baterias limpas, válvulas a modular, caudais de água dentro do especificado.
  • Validar renovação de ar conforme ocupação real (sem “cortar ar novo” para poupar e pagar depois em queixas).

Há uma paz estranha quando isto fica bem. As salas deixam de “oscilar”, os pedidos de manutenção reduzem, e o ruído de fundo-o de gente a adaptar-se-desaparece.

Sinal no dia a dia O que costuma indicar Próximo passo útil
Temperatura “ok”, ar pesado Renovação de ar insuficiente Medir CO₂ e confirmar caudal de ar novo
Muitas queixas em horas de pico Capacidade ou distribuição no limite Rever caudais e lógica de controlo
Consumo a subir sem motivo Compensação (ciclos/horas) Analisar arranques, setpoints e sensores

FAQ:

  • Como sei se é “normal” ter zonas frias e quentes? Se o padrão se repete com a ocupação e a hora do dia, não é normal: é desequilíbrio de caudal, controlo ou distribuição. Medir e mapear a zona costuma revelar a causa rapidamente.
  • Vale a pena mexer nos setpoints para “resolver”? Como teste temporário, sim; como solução, raramente. Setpoints mascaram problemas de caudal, sensores ou permuta e tendem a aumentar consumo.
  • O sistema é novo. Mesmo assim pode ter problemas de desempenho? Pode. Comissionamento incompleto, sondas mal colocadas, parametrização apressada e alterações no uso do espaço são causas comuns em instalações recentes.
  • Qual é a medição mais “rápida” que dá pistas? CO₂ e humidade, porque mostram se o sistema está a gerir pessoas e ar, não apenas temperatura. Junte temperaturas de insuflação/retorno e já tem uma narrativa.
  • Quando é que faz sentido chamar auditoria/retrocomissionamento? Quando há queixas recorrentes, consumo anómalo, ou mudanças de ocupação/uso. É a forma mais direta de transformar “parece funcionar” em “entrega”.

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