Instalei (ou melhor: herdei) um conjunto de sistemas avac num edifício de escritórios que “parecia” exemplar. Os relatórios diziam tudo o que queríamos ouvir - consumo controlado, conforto estável, alarmes a zero - e, no entanto, havia eficiência falsa a crescer nas margens: salas com frio em pleno verão, queixas em surdina, e uma fatura que nunca batia certo com a narrativa. É relevante porque este tipo de ilusão custa dinheiro, desgasta equipas e, pior, ensina-nos a confiar no que está bonito em vez do que está verdadeiro.
Numa segunda-feira de chuva, o segurança abriu a porta da sala técnica para eu “ver com os meus próprios olhos”. O som era o de sempre: ventiladores a trabalhar como se a vida dependesse disso, bombas em regime constante, e aquele ar morno de bastidores que ninguém quer respirar muito tempo. O quadro de gestão técnica centralizada mostrava tudo a verde. O edifício, por dentro, estava a vermelho - só que não no ecrã.
Quando o “tudo a verde” é só maquilhagem
Há sistemas que parecem eficientes porque não fazem barulho: o setpoint é razoável, as curvas estão configuradas, as tendências desenham linhas suaves. O problema é que linhas suaves também aparecem quando os sensores estão mal colocados, quando os valores são filtrados até deixarem de dizer a verdade, ou quando o sistema aprendeu a “jogar” com a forma como é avaliado.
Num edifício real, o conforto não se mede apenas por um número médio. Mede-se por extremos, por variações ao longo do dia, por zonas que nunca entram no gráfico porque ninguém lhes dá atenção. A eficiência falsa vive aí: no que não está a ser medido, ou no que está a ser medido de maneira conveniente.
E depois há o clássico: a aparência de estabilidade obtida à custa de esforço contínuo. Equipamento a funcionar 24/7 para garantir que parece que está tudo controlado. É uma forma elegante de desperdício: constante, silenciosa, difícil de contestar.
Os sinais discretos de que o edifício está a “gastar para parecer bem”
A maior parte das pessoas só repara quando começa a doer: queixas, avarias, faturas. Mas antes disso há pistas pequenas, repetidas, quase domésticas. Se as vir, pare de discutir opiniões e vá medir.
- Zonas com “conforto” no BMS, mas com ocupantes a trazerem aquecedores ou ventoinhas de casa.
- Horários de funcionamento que não seguem a ocupação real (noite, fins de semana, feriados).
- Válvulas de três vias sempre a meio curso, como se estivessem perpetuamente indecisas.
- Bombas sem variador (ou com variador “instalado” mas a trabalhar em manual a 100%).
- Temperaturas de ida/retorno com deltas demasiado baixos, sinal de caudais a mais ou permutas a menos.
- Alarmes “limpos” demais, porque foram silenciados, alargados ou configurados para nunca incomodar.
O padrão é simples: o sistema otimiza para não levantar ondas. E um edifício pode estar muito calmo por fora e muito caro por dentro.
Como a eficiência falsa se constrói (sem ninguém mentir)
Nem sempre é incompetência. Muitas vezes é uma soma de decisões razoáveis, tomadas sob pressão, que acabam a criar uma máquina de manter aparências.
Primeiro, ajusta-se um setpoint para calar uma queixa. Depois, outro para compensar o primeiro. A seguir, desativa-se uma estratégia porque “dá problemas” em dias específicos. Mais tarde, alguém fixa um caudal porque “assim funciona sempre”. Quando se dá por isso, a instalação está estável - mas apenas porque foi engessada.
Há também o lado humano: cada equipa vê uma parte. A manutenção quer previsibilidade, a operação quer zero chamadas, a gestão quer relatórios simples. O resultado pode ser um sistema que serve indicadores, não pessoas. E em sistemas avac, servir indicadores é um vício caro.
“Nós não precisamos de mais potência. Precisamos de parar de lutar contra nós próprios.”
O que eu faço para separar eficiência real de eficiência aparente
Não começo por trocar máquinas. Começo por confirmar se o edifício está a contar a verdade sobre si mesmo. Um dia bem escolhido de medições vale mais do que uma semana de reuniões.
Três passos práticos que costumam descobrir 80% do problema:
- Validar medições críticas: comparar sensores do BMS com medições portáteis (temperatura, humidade, CO₂, caudal, pressão). Um sensor descalibrado pode “consertar” um relatório inteiro.
- Confrontar horários com ocupação: ver tendências de funcionamento vs. acessos, reservas de salas, consumo elétrico base. Se a ocupação cai e a ventilação não, há desperdício garantido.
- Procurar simultaneidade: aquecer e arrefecer ao mesmo tempo, reaquecer após arrefecer, baterias a trabalhar em conflito. A eficiência falsa adora guerra civil interna.
Depois disso, sim: rever estratégias de controlo (curvas de água, reset de setpoints, free cooling), equilibrar hidráulica e aerólica, e garantir que variadores estão a servir uma lógica e não apenas a “existir”. A ordem importa, porque uma melhoria técnica em cima de uma medição errada é só uma forma sofisticada de continuar perdido.
O que isto muda no dia-a-dia (e na fatura)
Quando a eficiência é real, nota-se primeiro em pequenas coisas: menos queixas repetidas, menos ajustes manuais, menos picos de consumo sem explicação. A equipa deixa de “apagar fogos” e passa a gerir o edifício com margem.
A fatura melhora depois, mas melhora com consistência - não como milagre de um mês. E isso é o ponto: eficiência verdadeira tem um ritmo calmo, não um gráfico bonito numa apresentação.
| Sinal | O que costuma significar | O que fazer já |
|---|---|---|
| Tudo “verde” no BMS, queixas no terreno | Medição fraca ou controlo cego | Validar sensores e rever zonas críticas |
| Consumo alto fora de horas | Horários desalinhados | Ajustar calendários e intertravamentos |
| Delta T baixo nos circuitos | Caudal excessivo/conflitos | Equilibrar, rever setpoints e caudais |
FAQ:
- Como sei se os sistemas avac estão eficientes? Se conforto e consumo melhoram em simultâneo e de forma estável, com menos intervenção manual. Se só o relatório está “bonito”, desconfie.
- A eficiência falsa é sempre culpa do BMS? Não. Pode vir de sensores, hidráulica desequilibrada, estratégias desligadas, ou decisões acumuladas para “não dar chatices”.
- Qual é o primeiro indicador a analisar? Funcionamento fora de horas e simultaneidade de aquecimento/arrefecimento. São desperdícios grandes e fáceis de confirmar.
- Trocar equipamentos resolve? Às vezes, mas raramente é o primeiro passo. Sem medições fiáveis e controlo bem afinado, equipamento novo apenas faz o mesmo erro com mais eficiência.
- Dá para melhorar sem parar o edifício? Muitas vezes sim: ajuste de horários, recalibração de sensores, revisão de setpoints e ativação de estratégias (como free cooling) costumam ser intervenções faseadas.
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