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Porque sistemas antigos consomem mais mesmo após manutenção

Homem verifica caldeira com termómetro digital e lê instruções, filtro e caderno na mesa ao lado.

Acontece muitas vezes depois de uma intervenção “bem feita”: o edifício está confortável, o ruído baixou, os alarmes desapareceram - e, ainda assim, a fatura sobe. Nos sistemas avac, isto é quase um padrão quando a eficiência do envelhecimento já entrou em cena: o equipamento continua a funcionar, mas já não o faz com a mesma economia. Para quem gere um condomínio, uma loja, um escritório ou uma unidade industrial, esta diferença parece injusta - e é precisamente por isso que vale a pena perceber o mecanismo.

Há um detalhe que confunde: manutenção não é rejuvenescimento. Trocam-se filtros, ajustam-se correias, limpa-se uma bateria, verifica-se gás, e o sistema melhora. Só que, por baixo desse “melhor”, existe uma arquitetura de perdas acumuladas que não desaparece com uma visita técnica.

Quando o consumo sobe sem parecer avaria

Os sistemas antigos raramente falham de forma dramática. Eles deslizam para a ineficiência em silêncio, como um carro que continua a andar bem mas já precisa de mais combustível para a mesma viagem. A manutenção remove atrito óbvio; não remove anos de micro-desgaste, de tecnologias ultrapassadas e de decisões de projeto feitas para outra realidade de uso.

O resultado é irritante: tudo “está ok”, mas o contador não concorda. E se o edifício também mudou - mais pessoas, mais equipamentos, outras horas de ocupação - a sensação de que “antes não era assim” torna-se ainda mais forte.

O que a manutenção resolve (e o que não consegue resolver)

Manutenção é essencial, mas tem limites físicos e económicos. Ela devolve desempenho dentro do que o equipamento ainda consegue entregar, e isso já é valioso. O problema começa quando o teto possível já desceu.

Três exemplos típicos:

  • Limpar uma bateria melhora a troca térmica, mas não transforma um permutador corroído num permutador novo.
  • Afinar um ventilador reduz vibração, mas não muda a eficiência do motor se for antigo, sobredimensionado ou sem controlo de velocidade.
  • Verificar carga de refrigerante estabiliza pressões, mas não corrige um circuito mal dimensionado ou com válvulas cansadas que modulam mal.

A manutenção tira o sistema do “pior”. Nem sempre o traz de volta ao “bom”.

A matemática escondida da eficiência do envelhecimento

A eficiência do envelhecimento não é uma ideia vaga: é a soma de pequenas perdas que se multiplicam. Uma bateria ligeiramente suja pede mais caudal. Mais caudal pede mais potência do ventilador. Mais potência aquece o ar do retorno, aumenta o trabalho do compressor e alonga tempos de funcionamento. Nada disto soa a avaria; soa a “mais um bocadinho”.

E depois há o velho clássico: equipamentos dimensionados para picos que já não existem (ou para ocupações que mudaram) passam grande parte do tempo fora do ponto ótimo. Sistemas antigos tendem a sofrer mais aqui porque têm menos capacidade de modular, de ajustar e de “andar devagar” quando o edifício só precisa de metade.

O consumo extra aparece em três lugares:

  • Horas: funciona mais tempo para chegar ao mesmo conforto.
  • Potência: precisa de mais energia instantânea para empurrar ar/água pela mesma rede.
  • Perdas: foge em fugas de ar, isolamento degradado, válvulas que já não fecham bem, sensores fora de calibração.

Porque “está a fazer frio/quente” não significa “está eficiente”

Conforto é um resultado, não um indicador de eficiência. Um sistema pode manter 22 °C e, ao mesmo tempo, estar a desperdiçar energia a corrigir-se a si próprio: aquece e arrefece em ciclos curtos, compensa leituras erradas, luta contra caudais mal equilibrados, ou trabalha contra uma rede de condutas com fugas.

Há um sinal subtil: quando o conforto parece estável mas a instalação tem muitos arranques/paragens, muitas correções e muito “vai-e-vem” de válvulas. É o equivalente a conduzir com o pé sempre a alternar entre acelerador e travão.

Três fontes de consumo extra que aparecem com a idade

A maior parte das instalações antigas perde eficiência por razões pouco fotogénicas. Não são dramas; são “pequenas” heranças.

  1. Controlo e automação desatualizados
    Termóstatos simples, horários fixos, ausência de otimização por ocupação, sem free-cooling quando existe oportunidade, e setpoints que ninguém revê há anos. O equipamento até pode estar impecável, mas está a ser comandado como se fosse 2005.

  2. Distribuição degradada (ar/água)
    Condutas com fugas, isolamento cansado, filtros e grelhas que criam perdas de carga, redes hidráulicas desbalanceadas e válvulas que “passam” mesmo quando fechadas. O gerador (chiller/caldeira) paga por uma rede que já não entrega bem.

  3. Componentes que envelhecem fora do alcance da manutenção normal
    Trocar filtros não troca rolamentos de motor cansados, não troca permutadores com micro-corrosão interna, não troca compressores com folgas maiores, nem corrige a eficiência intrínseca de um refrigerante e de uma tecnologia mais antiga.

“O sistema está a funcionar. O problema é que está a trabalhar mais para fazer a mesma coisa.”

O que fazer na prática (sem cair no “tem de substituir tudo”)

Há uma zona útil entre “manter como está” e “obra total”. E muitas vezes é aí que se recupera a maior parte do desperdício.

Um plano curto e realista:

  • Medir antes de adivinhar: kWh, horas de funcionamento, arranques, temperaturas de ida/retorno, pressões, caudais. Dois dias de dados valem mais do que dez opiniões.
  • Recomissionar o controlo: rever horários, setpoints, bandas mortas, sequências de arranque, free-cooling, e garantir que sensores medem o que dizem medir.
  • Atacar perdas de distribuição: fugas em condutas, isolamento, balanceamento hidráulico, válvulas de 2 vias onde faz sentido, e limpeza onde o ganho é comprovável.
  • Adicionar modulação onde falta: variadores de velocidade em bombas/ventiladores, quando o perfil de carga o justifica. É muitas vezes o “ponto de viragem” em instalações antigas.

O objetivo não é modernizar por vaidade. É parar de pagar por energia que não chega ao conforto.

Sintoma observado Causa provável Ação típica
Consumo alto com conforto normal Falta de modulação/controlo pobre Reprogramação, VSD, otimização de sequências
Muitas horas de funcionamento Perdas na rede, setpoints agressivos Selagem/isolamento, ajuste de setpoints, balanceamento
Ciclos curtos (liga/desliga) Sobredimensionamento, sensores, caudais errados Ajuste de controlo, calibração, revisão de caudais

FAQ:

  • O consumo subir após manutenção significa que foi mal feita? Nem sempre. Pode ter havido melhoria de conforto (mais carga efetiva), correção de um desvio que “mascarava” medições, ou simplesmente o sistema estar a trabalhar dentro das suas limitações de idade.
  • Como sei se é “idade” ou má afinação? Se o equipamento está mecanicamente estável mas há muitas horas, ciclos curtos e setpoints incoerentes, começa por recomissionar e medir. Se, mesmo otimizado, o COP/EER real continuar baixo, a idade/tecnologia pesa mais.
  • Vale a pena trocar só a automação? Muitas vezes sim. Em sistemas avac antigos, controlo e modulação podem recuperar uma fatia grande do desperdício sem trocar geradores.
  • Quando é que a substituição faz sentido? Quando os custos energéticos + manutenção + indisponibilidade superam o investimento, ou quando já não há peças/fiabilidade. A decisão deve ser suportada por medições e cenário de retorno.
  • Qual é o primeiro indicador simples a acompanhar? kWh por hora de funcionamento (e não apenas kWh total). Ajuda a perceber se o problema é “tempo a mais”, “potência a mais”, ou ambos.

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