Entrei numa sala de máquinas numa manhã em que nada “tinha mudado”: os sistemas avac estavam a correr como sempre, e ainda assim o conforto era outro. O técnico culpava o equipamento, mas o histórico não mostrava alarmes nem ajustes; o que tinha mudado, discretamente, eram os fatores ambientais - humidade, ocupação, vento, calor acumulado no edifício. Para quem gere instalações, esta variabilidade é o tipo de ruído que vira queixas, aumenta consumos e empurra decisões erradas.
Há dias em que a temperatura parece teimar, mesmo com o setpoint igual. Há semanas em que a energia dispara sem uma avaria visível. E há aquele momento frustrante em que o sistema “está bem”, mas o utilizador não está.
Quando o “igual” não é igual
O desempenho não vive apenas no que se vê no controlador. Vive na diferença entre a carga real e a carga prevista, e essa diferença muda sem pedir licença. Um edifício é um organismo: absorve sol, guarda calor, respira através de portas, infiltrações e escadas, e reage ao ritmo das pessoas.
O mais enganador é que muitas destas mudanças não parecem mudanças. Uma tarde ligeiramente mais húmida pode tornar o ar mais pesado e puxar pelo desumidificador; uma manhã com vento pode aumentar infiltrações e derrubar a temperatura de retorno; um céu limpo após dias nublados muda a carga solar e “baralha” o equilíbrio que ontem funcionava.
E depois há a psicologia do conforto: duas condições semelhantes no ecrã podem ser sentidas de forma diferente quando a humidade, a velocidade do ar ou a radiação das superfícies não acompanham.
Os fatores ambientais que mais mexem no resultado (sem avisar)
Em campo, quase sempre encontro o mesmo trio a fazer estragos silenciosos: clima, edifício e pessoas. Não é glamour, mas é aqui que a variabilidade se esconde.
- Humidade exterior e interior: a carga latente varia muito. Num dia húmido, o sistema pode manter 22 °C e ainda assim parecer desconfortável, porque o corpo “não arrefece” igual.
- Vento e infiltrações: a pressão do vento altera entradas de ar não controladas. Uma fachada “bate” vento e a outra “puxa” ar por frestas; o sistema compensa sem que ninguém mexa em nada.
- Carga solar: radiação direta em envidraçados muda a carga por zonas. O setpoint é único, mas o edifício não é.
- Temperatura do solo/água (em equipamentos com trocadores): pequenas variações na fonte/sumidouro mudam COP, caudais e capacidade efetiva.
- Poluição e partículas: filtros carregam mais depressa em certos dias/épocas; o caudal cai, a troca térmica piora, e o “sintoma” parece uma falha de controlo.
- Microclimas locais: sombra de árvores, proximidade do mar, ruas estreitas que seguram calor. A estação meteorológica mais próxima pode não representar o teu edifício.
O resultado é um sistema que parece instável quando, na verdade, está apenas a responder a um mundo mais variável do que os gráficos diários mostram.
O que muda dentro do edifício: ocupação, portas, rotinas
Há uma frase que volta sempre: “Mas está tudo como sempre.” Só que raramente está.
Uma sala de reuniões cheia durante três horas não é “mais do mesmo” - é uma caldeira de calor sensível, CO₂ e humidade. Um átrio com portas automáticas a abrir em rajadas cria uma cascata de ar frio/quente que se propaga para além da zona. Uma mudança de horário (ou uma equipa híbrida que aparece toda à terça) desloca o pico de carga e faz o sistema parecer “atrasado”.
Até pequenas decisões contam: persianas levantadas, iluminação ligada mais cedo, equipamentos em standby que afinal não dormem. O desempenho varia porque a carga varia, e a carga é um mosaico de hábitos.
“A maior parte das ‘avarias’ que investigamos começa por ser uma mudança de uso que ninguém registou.”
Porque os controlos parecem o culpado (mas muitas vezes não são)
Quando a sensação de conforto piora, o dedo aponta ao termóstato. É compreensível: é o único sítio onde vemos números. Mas os controlos estão a tentar equilibrar variáveis que nem sempre medimos bem.
Dois exemplos típicos: 1. Setpoint constante, humidade a subir: o sistema mantém temperatura, mas a remoção de humidade fica curta (por caudal, temperatura da água gelada, ou estratégia de desumidificação). O utilizador sente “abafado”. 2. Zonas a competir: uma zona pede frio por carga solar, outra pede quente por infiltração. O sistema central oscila, e o desempenho médio parece pior, mesmo sem qualquer alteração de parâmetros.
Let’s be honest: ninguém calibra expectativas com a mesma frequência com que calibra sensores. E, sem sensores fiáveis (temperatura, humidade, CO₂, caudal), o controlo fica a conduzir com nevoeiro.
Um método curto para diagnosticar variações sem trocar peças
Quando o desempenho muda “do nada”, a tentação é ajustar setpoints, mexer em PID, ou pedir orçamento para “um equipamento maior”. Antes disso, faço um percurso simples, quase ritual.
- Comparar o dia com um “dia gémeo”: mesma hora, mas com meteorologia semelhante. Se não houver, pelo menos compara com a semana anterior e nota humidade/vento/sol.
- Confirmar medições: sonda de temperatura desviada 1 °C e sonda de humidade a mentir 10% fazem milagres… ao contrário.
- Olhar para caudais e perdas de carga: filtros, baterias sujas, válvulas a não fechar bem. É aí que o “parece igual” se parte.
- Mapear ocupação real: picos, eventos, zonas vazias. O BMS raramente sabe quem entrou pela porta.
- Procurar sinais de simultaneidade: aquecer e arrefecer ao mesmo tempo, reheat desnecessário, bypasses abertos. Energia a fugir sem drama visível.
O objectivo não é caçar culpados. É perceber que a variação é muitas vezes uma resposta razoável a condições que mudaram fora do ecrã.
| Ponto-chave | O que observar | Porque importa |
|---|---|---|
| Carga latente | Humidade e sensação “abafada” | Conforto piora sem subir a temperatura |
| Infiltrações/vento | Portas, pressão, zonas frias | Oscilações e queixas por áreas |
| Caudais reais | Filtros, baterias, válvulas | Perda de capacidade e consumo maior |
FAQ:
- Porque é que a temperatura está certa mas o conforto está errado? Porque conforto não é só temperatura: humidade, velocidade do ar e radiação das superfícies mudam a perceção.
- O que pode fazer o consumo subir sem avarias? Alterações de ocupação, mais humidade exterior, filtros carregados, simultaneidade (aquecer e arrefecer) e carga solar por zonas.
- Devo baixar o setpoint quando há queixas? Nem sempre. Se o problema for humidade ou caudal, baixar setpoint pode piorar consumo e ainda não resolver a sensação.
- Qual é o primeiro dado a confirmar? As medições: sondas de temperatura/humidade e sinais de caudal/pressão. Um sensor errado cria “problemas” muito convincentes.
- Como reduzir esta variabilidade no dia a dia? Melhorar monitorização (humidade/CO₂/caudais), manutenção preventiva (filtros e baterias), e ajustar estratégias por zonas e por ocupação real.
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