A cena repete-se: o ar condicionado trabalha todos os dias sem queixas e, no momento em que a casa está cheia, a onda de calor aperta ou a loja não pode parar, ele decide falhar. Parece azar, mas muitas vezes é mecânica e eletricidade a fazerem contas. E quase sempre há um culpado silencioso no meio: a sobrecarga do sistema, quando tudo pede mais do que a instalação consegue dar, exatamente no dia em que mais precisa.
O desconforto não é só calor. É ruído a subir, contas a crescer, gente irritada e a sensação de que “isto só acontece a mim”. A boa notícia é que, quando percebemos o padrão, dá para prevenir - e, quando falha, dá para diagnosticar com menos pânico.
O “pior dia” não é coincidência: é o dia em que o sistema é testado
Num dia ameno, o equipamento liga, arrefece rápido e desliga. No pior dia, a máquina entra em maratona: trabalha horas seguidas, com o sol a bater nas paredes, mais portas a abrir, mais gente a respirar, mais eletrodomésticos a aquecer o ar, e por vezes com filtros já cansados.
É também o dia em que a rede elétrica do prédio e do bairro está mais exigida. A tensão pode oscilar, os disjuntores aquecem, e aquilo que “aguentava” no resto do ano passa a falhar por proteção. O sistema não decide ser dramático; decide sobreviver.
Quando o ar condicionado parece “morrer” no pico do calor, muitas vezes está a entrar em proteção: falta de fluxo de ar, pressão fora do normal, ou alimentação elétrica instável.
Como a sobrecarga do sistema aparece (sem avisar)
A sobrecarga do sistema não é só “muita potência”. É a soma de pequenos pesos que, num dia extremo, deixam de caber no mesmo saco: calor exterior, carga térmica interior, ventilação fraca e consumo elétrico simultâneo.
Os sinais mais comuns
- Ar sai morno mesmo com temperatura baixa no comando.
- Unidade exterior liga e desliga frequentemente (ciclos curtos).
- Disjuntor dispara ao fim de algum tempo, não imediatamente.
- Goteiras ou gelo nos tubos/unidade interior.
- Cheiro a “humidade” porque o equipamento já não desumidifica como devia.
Um detalhe traiçoeiro: quando a casa está mais quente, o ar condicionado tem de retirar mais energia por minuto. Se o fluxo de ar está reduzido (filtro sujo, grelhas tapadas), a troca de calor piora e as pressões sobem. O sistema aquece, força, e por fim protege-se.
As 5 causas que mais fazem falhar no pior dia
Não é “mau karma”. É quase sempre uma destas cinco, e elas gostam de aparecer juntas.
1) Filtros sujos e falta de caudal de ar
Parece básico, mas é campeão de chamadas técnicas em agosto. Filtro sujo reduz o caudal, o evaporador pode gelar, e o aparelho perde capacidade justamente quando precisa de respirar mais.
Se a unidade interior está numa sala com cortinados a tapar a entrada de ar, ou se a grelha está encostada a móveis, o efeito é parecido: o equipamento trabalha, mas sem pulmão.
2) Unidade exterior sufocada pelo próprio calor
A unidade exterior precisa de expulsar calor. No pior dia, ela está a tentar expulsar calor para um ar que já está quente, muitas vezes com sol direto e pouca circulação. Se estiver numa marquise fechada, num canto sem espaço, ou com folhas e pó a bloquear as aletas, o esforço dispara.
Às vezes o problema é mais simples: o ventilador está fraco, a grelha está obstruída, ou o condensador está sujo. O resultado é o mesmo: o sistema entra em proteção por alta pressão.
3) Sobrecarga elétrica e disjuntor no limite
No pico do verão, a casa liga tudo ao mesmo tempo: forno, placa, máquinas, carregadores, e mais o ar condicionado em esforço máximo. A instalação pode não estar dimensionada para esse cenário, ou o disjuntor pode estar envelhecido e a disparar com aquecimento.
Isto explica um padrão clássico: “liga bem de manhã, mas à tarde vai abaixo” - quando a temperatura sobe e a corrente necessária também.
4) Gás refrigerante fora do ponto (fuga ou carga incorreta)
Menos gás não significa “menos frio e pronto”. Pode causar gelo no evaporador, baixa eficiência e funcionamento errático. Num dia normal, ainda “quebra o galho”. No pior dia, deixa de conseguir acompanhar a carga térmica e parece que o ar condicionado perdeu força de um ano para o outro.
Se houver fuga, não é um “consumo normal”: é um problema a resolver, com deteção, reparação e carga conforme especificação.
5) Dimensionamento ou expectativas desalinhadas
Há casas onde o equipamento nunca teve hipótese real: áreas maiores do que o previsto, pé-direito alto, janelas a poente sem sombreamento, ou várias divisões a tentar ser arrefecidas por um só split. No pior dia, a margem desaparece.
Um ar condicionado pode estar a funcionar corretamente e, ainda assim, ser insuficiente para a carga térmica daquele cenário. E isso não se resolve baixando o comando para 16 ºC; resolve-se reduzindo ganhos (sombra, vedação) ou aumentando capacidade.
O que fazer no momento em que falha (sem piorar a avaria)
Antes de chamar assistência, há um pequeno protocolo que evita danos e ajuda a perceber se é algo simples ou técnico.
- Desligue 10 minutos e volte a ligar. Proteções térmicas precisam de “respirar”.
- Verifique filtros e limpe-os (se forem laváveis) ou aspire suavemente, deixando secar bem antes de recolocar.
- Confirme as grelhas: nada a tapar entradas/saídas de ar.
- Veja a unidade exterior: está a ventilar livremente? há sol direto brutal? há lixo/folhas?
- Se o disjuntor disparar, não force repetidamente. Isso pode indicar sobrecarga real ou problema elétrico.
Se notar cheiro a queimado, cabos aquecidos, ou gelo persistente na unidade/tubos, pare e chame um técnico. Continuar pode transformar um problema simples num caro.
Pequenas prevenções que evitam a chamada no dia mais caro do ano
A manutenção que parece “chata” em maio é a que evita o colapso em agosto. Não precisa de ritual infinito; precisa de regularidade.
- Limpar filtros a cada 2–4 semanas em uso intenso.
- Garantir folga e sombra na unidade exterior (sem a enclausurar).
- Fazer manutenção anual: limpeza de serpentinas, verificação de drenos, aperto elétrico, medições de pressões e temperaturas.
- Rever potência contratada e circuito dedicado quando há disparos frequentes.
- Reduzir ganhos térmicos: estores, películas, cortinas térmicas, vedação de frestas.
Um truque simples que muda o jogo: nos dias de maior calor, comece cedo. Arrefecer a casa de manhã (quando as paredes ainda não “cozinharam”) exige menos do que tentar recuperar uma casa acumulada de calor às 18h.
Um mapa rápido: “sintoma → provável causa”
| Sintoma | Mais provável |
|---|---|
| Ar morno e pouca força | filtros/serpentinas sujas ou gás baixo |
| Liga e desliga em minutos | sobreaquecimento na exterior ou sensor/proteção |
| Disjuntor dispara à tarde | sobrecarga elétrica + esforço máximo |
| Gelo na unidade interior | falta de caudal de ar ou gás fora do ponto |
FAQ:
- Porque é que o ar condicionado arrefece de manhã e falha à tarde? Porque à tarde a carga térmica e o esforço elétrico são maiores: mais calor acumulado nas paredes, sol direto e maior consumo na rede. Se houver filtros sujos ou condensador quente, o sistema chega mais depressa ao limite e entra em proteção.
- Baixar para 16 ºC ajuda quando está muito calor? Raramente. Faz o equipamento trabalhar no máximo por mais tempo, podendo agravar sobreaquecimento e consumo. O mais eficaz é melhorar fluxo de ar, sombreamento e começar a arrefecer mais cedo.
- É normal “gastar gás” todos os anos? Não. O circuito é fechado; se falta refrigerante, normalmente existe fuga ou erro de carga. Deve ser diagnosticado e reparado antes de recarregar.
- Quando devo chamar um técnico sem tentar mais nada? Se houver cheiro a queimado, disparos repetidos do disjuntor, gelo persistente, ruídos metálicos anormais, ou se a unidade exterior não estiver a ventilar corretamente. Essas situações podem indicar risco elétrico ou dano no compressor.
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