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Porque o ar condicionado começa a cheirar mal logo no verão

Pessoa a lavar filtro de ar condicionado numa cozinha iluminada.

No primeiro dia verdadeiramente quente, ligas o ar condicionado e, em vez daquele “ar limpo” que prometia alívio, vem uma baforada estranha, húmida, às vezes a mofo. Quase sempre o problema começa nos filtros, que passaram meses a apanhar pó fino, gordura de cozinha e pêlos, e agora acordam com a humidade do verão. É relevante porque o cheiro não é só incómodo: costuma ser um sinal de sujidade acumulada, água parada e eficiência a cair.

Há uma coreografia típica. Primeiro, finges que “vai passar”. Depois baixas mais a temperatura, como se o frio resolvesse a origem. E, quando o cheiro volta sempre que o aparelho arranca, percebes que não é azar - é manutenção (ou falta dela) a falar.

Porque é que cheira mal precisamente quando chega o calor

No inverno e na primavera, muitos equipamentos ficam parados ou trabalham pouco. Dentro do aparelho, o pó deposita-se nas superfícies e as gorduras do ar (sobretudo em casas com cozinha aberta) criam uma película discreta. Quando chega o verão, o sistema volta a arrefecer de forma intensa e a condensação aumenta. Humidade + sujidade = o cenário perfeito para odores.

O cheiro “a mofo” costuma vir de colónias microbianas no tabuleiro de condensados ou na serpentina (o permutador frio), onde a água se forma e escorre. O cheiro “a cão molhado” ou “a pano húmido” aparece muitas vezes quando o ar passa por superfícies húmidas com partículas orgânicas agarradas. E aquele cheiro ligeiramente ácido pode ser simplesmente água parada, com tempo suficiente para ganhar personalidade.

O que muda no verão (e que o nariz denuncia)

  • Mais horas de funcionamento, logo mais ciclos de condensação.
  • Portas e janelas a abrir com frequência: entra pó, pólen e humidade.
  • Casas fechadas durante o dia: odores acumulam-se e ficam mais evidentes quando o ar circula.
  • Temperaturas altas no exterior: o aparelho trabalha mais e “puxa” mais ar, arrastando mais sujidade.

Os suspeitos do costume: onde o cheiro se fabrica

Começa quase sempre nos sítios menos glamorosos: onde o ar entra, onde a água cai e onde a sujidade cola.

Os filtros são o primeiro gargalo. Quando estão carregados, além de reduzirem o caudal de ar, tornam-se uma espécie de tapete: retêm poeiras e partículas que, com a humidade, ganham cheiro. Mesmo quando “parecem limpos”, podem ter uma camada fina que só se nota ao lavar e ver a água a escurecer.

O segundo ponto é a serpentina/evaporador. É fria, tem aletas finas e apanha tudo o que passou no filtro (ou contornou um filtro mal colocado). Ali, o pó humedecido pode formar uma pasta leve que cheira mal e ainda dificulta a troca térmica - ou seja, pagas mais para arrefecer menos.

Depois vem o tabuleiro e o dreno dos condensados. Se o tubo estiver parcialmente obstruído, a água não escoa como deve e fica ali, morna e parada entre ciclos. É o “aquário” que ninguém pediu.

“Odores de verão são muitas vezes um problema de água e poeira, não de perfume. Se limpar e secar, o cheiro desaparece,” diz um técnico de climatização, repetindo o básico que ninguém quer ouvir em agosto.

Um diagnóstico rápido em 3 minutos (sem desmontar metade da casa)

Antes de comprares sprays ou “bombas perfumadas”, tenta perceber de onde vem.

  1. Cheira só nos primeiros minutos e depois melhora? Pode ser humidade no interior e sujidade leve - típico de falta de secagem.
  2. Cheira sempre que está a funcionar? Provável serpentina suja, filtros saturados ou drenagem deficiente.
  3. Cheira a esgoto/água parada? Desconfia do dreno e do tabuleiro de condensados.
  4. Cheiro a queimado ou plástico quente? Desliga e chama assistência; pode ser elétrico (não é “normal do verão”).

Se conseguires, abre a tampa frontal e espreita os filtros. Se estão acinzentados, com pó preso nas malhas, já tens um culpado concreto e simples.

O que fazer: a rotina curta que resolve a maior parte dos casos

Não é uma limpeza “de primavera” com ferramentas exóticas. É manutenção pequena, feita no momento certo.

1) Limpar os filtros (a sério, não só sacudir)

Retira-os e lava com água morna. Se houver gordura (muito comum em zonas perto da cozinha), usa uma gota de detergente da loiça, esfrega suavemente e enxagua bem. Deixa secar totalmente à sombra antes de voltar a colocar - filtro húmido é convite para mais cheiro.

Regra prática: em verão de uso diário, aponta para limpeza a cada 2–4 semanas. Casas com animais, obras por perto ou muito pólen pedem mais frequência.

2) Secar o interior: o truque “anti-mofo” que quase ninguém usa

Quando desligas o arrefecimento, fica humidade lá dentro. Muitos equipamentos têm modo “dry”, “fan” ou uma função de auto-limpeza. Se não tiverem, deixa o aparelho em ventilação (sem frio) durante 10–20 minutos, de vez em quando, especialmente em dias muito húmidos. Ajuda a evaporar água residual e corta o ciclo do cheiro.

3) Confirmar a drenagem

Se tens acesso ao tubo de dreno (varia muito entre splits e portáteis), verifica se há água a escoar quando o aparelho trabalha. Ausência total, gotejamento dentro de casa, ou cheiro a água parada são sinais de problema. Nalguns casos, uma obstrução leve resolve-se com limpeza profissional; não forces arames nem improvisos que rasguem o tubo.

4) Quando vale a pena chamar um técnico

  • O cheiro volta poucos dias depois de lavar filtros.
  • O aparelho pinga, faz ruídos de água ou a divisão fica com sensação de “cave”.
  • Há suspeita de bolor visível na unidade interior.
  • O desempenho caiu (demora muito a arrefecer) e a conta subiu.

Uma limpeza técnica ao evaporador e ao tabuleiro de condensados costuma ter impacto imediato no cheiro e na eficiência - e é, muitas vezes, mais barato do que viver o verão a perfumar um problema.

O que evitar (porque costuma piorar)

Alguns “remendos” resolvem o sintoma por uma hora e deixam resíduos por semanas.

  • Sprays perfumados dentro da unidade: podem mascarar, mas também colar mais pó e irritar vias respiratórias.
  • Ligar sempre no máximo para “limpar o ar”: só espalha mais depressa o cheiro se a origem estiver húmida.
  • Recolocar filtros ainda húmidos: é a receita mais rápida para o mofo voltar.
  • Ignorar cheiros a queimado: isso não é manutenção, é risco.

Um pequeno calendário para passar o verão sem surpresas

Momento O que fazer Resultado
Início do calor Lavar filtros + confirmar escoamento Menos cheiro no arranque
Pico do verão Ventilação/auto-secagem 1–2x por semana Menos humidade interna
Mensalmente Rever e limpar filtros Melhor caudal e eficiência

FAQ:

  • O cheiro desaparece sozinho? Às vezes diminui quando o interior seca, mas se a origem for sujidade com humidade, tende a voltar e piorar nos dias mais quentes.
  • Com que frequência devo limpar os filtros? Em uso diário no verão, a cada 2–4 semanas. Se houver animais, pó ou cozinha próxima, encurta o intervalo.
  • É seguro usar produtos antibacterianos “próprios para AC”? Alguns são adequados, mas devem ser usados conforme instruções e sem encharcar componentes. Se houver bolor ou drenagem deficiente, a solução eficaz costuma ser limpeza técnica.
  • Porque é que o cheiro é mais forte quando ligo o aparelho? No arranque, o ar passa por superfícies que estiveram húmidas e paradas; os primeiros minutos libertam os odores acumulados.
  • Um ar condicionado a cheirar mal faz mal à saúde? Pode agravar alergias e irritações, sobretudo se houver bolor ou filtros muito sujos. Se alguém em casa tem asma/alergias, trata o problema cedo e considera manutenção profissional.

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