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Porque alguns sistemas falham antes do esperado

Homem analisa rolamento com lupa em oficina, peças de engrenagem e caderno ao redor.

Instala-se um sistema, acende-se o painel, o ar começa a circular e a vida segue. Só que, meses - às vezes semanas - depois, alguns sistemas avac já estão a dar sinais de cansaço, e a falha prematura aparece como uma conta inesperada: ruído novo, cheiros, consumos a subir, queixas que voltam. Para quem gere um edifício, uma loja, um hospital ou uma casa, isto importa porque o conforto é só a superfície; por baixo está energia, saúde do ar e risco operacional.

Aprendi a olhar para estas avarias como se fossem uma história que se escreve devagar. Quase nunca é “azar”. É uma sequência de pequenas decisões, pequenos atalhos e um detalhe ignorado que, de repente, deixa de ser detalhe.

Quando o tempo encurta: o que a falha está a tentar dizer

Há um momento típico: o sistema ainda “funciona”, mas já não trabalha bem. A temperatura oscila, a unidade exterior liga e desliga mais vezes, ou a ventilação parece forte num canto e fraca noutro. Nessa fase, o equipamento está a pagar juros.

O sinal mais útil é a mudança de padrão. Uma instalação que era silenciosa passa a “falar”: vibrações, cliques, um zumbido persistente. O edifício também fala - vidros embaciados, zonas com humidade, odores que voltam ao fim do dia. Ignorar isto é como aumentar o volume da música para não ouvir o motor.

As causas mais comuns (e quase sempre acumuladas)

Não há uma única razão que explique tudo. O que existe é um empilhamento de fatores que, juntos, reduzem a margem de segurança do equipamento. E o primeiro fator costuma ser invisível: dimensionamento e uso real.

1) Dimensionamento errado e ciclos curtos
Uma unidade sobredimensionada arrefece depressa demais e desliga. Repete o ciclo dezenas de vezes por dia, o que desgasta contactores, compressores e ventiladores, e ainda falha em desumidificar como deve ser. No papel, parece potência; no dia-a-dia, vira desgaste.

2) Instalação “a correr”
Tubagens com curvaturas apertadas, suportes mal fixos, drenagens com inclinação insuficiente, cabos sem proteção. Tudo isto não mata o sistema no primeiro dia, mas cria micro-problemas: vibração constante, fugas pequenas, condensados onde não deviam existir.

3) Falta de comissionamento e afinação
É comum pôr a funcionar e “parece bem”. Só que sem medir caudais, pressões, temperaturas de insuflação/retorno e sem confirmar a lógica de controlo, o sistema pode ficar a trabalhar fora do ponto ideal desde a primeira semana. O equipamento aguenta - até deixar de aguentar.

4) Filtragem negligenciada (ou inadequada)
Filtros saturados aumentam a perda de carga. O ventilador esforça-se, o caudal cai, a bateria troca pior, e o conjunto aquece/desgasta. O mais traiçoeiro: a degradação é lenta, e a equipa habitua-se ao “novo normal”.

5) Qualidade do ar e do ambiente: poeiras, gordura, salinidade
Cozinhas, oficinas, zonas costeiras e armazéns com pó fino são ambientes agressivos. Sem proteções e limpeza planeada, a permuta térmica cai e a corrosão acelera. O sistema não falha por ser “mau”; falha por estar a trabalhar num sítio que o está a lixar todos os dias.

6) Controlo e automação mal configurados
Horários errados, setpoints demasiado ambiciosos, sensores mal colocados, compensações que nunca foram calibradas. Um erro de software pode transformar um sistema eficiente numa máquina de ligar/desligar, ou num aquecedor e arrefecedor a discutirem no mesmo corredor.

O que eu verifico primeiro (uma rotina que evita trocas desnecessárias)

Antes de “culpar o compressor” ou encomendar uma unidade nova, vale a pena seguir uma sequência simples. Não é glamorosa, mas é onde se ganha tempo e se perde menos dinheiro.

  • Ouvir e ver: ruídos novos, vibração, gelo, marcas de água, corrosão, cabos aquecidos.
  • Medir o básico: diferença de temperatura insuflação/retorno, consumos, pressões, caudais (nem que seja por indicação indireta).
  • Confirmar o óbvio: filtros, grelhas obstruídas, drenagem, ventiladores sujos, correias/tensões (se aplicável).
  • Rever controlo: horários, setpoints, modos (economizador, free-cooling), alarmes ignorados, sensores a “mentir”.
  • Confrontar com o uso real: ocupação mudou? layout mudou? portas abertas? equipamento novo a gerar calor?

O padrão repete-se: a falha prematura raramente é um único golpe. É o sistema a trabalhar fora do previsto, todos os dias, com menos margem do que devia.

“Não é o equipamento que é fraco; é a margem que foi comida aos bocados.”

Como aumentar a vida útil sem transformar isto num projeto infinito

A boa notícia é que muitas medidas são pequenas e cumulativas. O objetivo não é “perfeição”, é consistência: reduzir stress mecânico, estabilizar controlo e manter o ar a circular sem estrangulamentos.

  1. Definir uma cadência de manutenção realista (e cumpri-la): filtros, limpeza de baterias, inspeção de drenagens e aperto mecânico.
  2. Fazer um mini-comissionamento anual: confirmar caudais, temperaturas, setpoints, e ajustar o que se desviou.
  3. Tratar o ambiente: proteção anticorrosão em zona costeira, pré-filtragem onde há pó, captação adequada onde há gordura.
  4. Treinar quem opera: um sistema bem operado envelhece devagar; um sistema “mexido” por tentativa-erro envelhece depressa.
  5. Registar 3 números: consumo, temperatura de insuflação e horários. A tendência apanha problemas antes de virarem avaria.

O que isto deixa no fim: menos surpresas, mais previsibilidade

A maioria dos edifícios não precisa de milagres; precisa de um sistema que faça o básico todos os dias. Quando os sistemas avac falham antes do esperado, o custo não é só a reparação: é desconforto, queixas, perda de produtividade e, nalguns contextos, risco sanitário. Um pequeno hábito de verificação e uma afinação honesta costumam valer mais do que uma substituição apressada.

Sinal O que pode significar Próximo passo
Liga/desliga frequente Sobredimensionamento, setpoints agressivos, controlo mal afinado Rever controlo e cargas reais
Caudal fraco em zonas Filtros, obstruções, ventilador sujo, rede desbalanceada Ver filtros/grelhas e medir caudais
Humidade e cheiros Desumidificação insuficiente, drenagem, renovação de ar inadequada Ver drenagem e estratégia de ventilação

FAQ:

  • Porque é que um sistema novo pode falhar tão cedo? Normalmente por instalação/comissionamento incompletos, controlo mal afinado ou funcionamento fora do previsto (cargas e ocupação diferentes do projeto).
  • Filtros podem mesmo causar avarias? Sim. Filtros saturados reduzem caudal, aumentam esforço do ventilador e pioram a troca térmica, acelerando desgaste e disparando alarmes.
  • Como sei se está sobredimensionado? Um indício forte é o ciclo curto: atinge setpoint rapidamente e desliga, repetindo muitas vezes, com humidade a manter-se alta e conforto irregular.
  • Vale mais reparar ou substituir? Depende da idade, do estado das baterias/compressores e do histórico. Mas antes de decidir, vale medir e corrigir causas de base (controlo, caudais, manutenção), senão a substituição repete o problema.
  • Qual é a ação com melhor retorno? Uma rotina simples: filtros em dia + limpeza + verificação anual de setpoints/sensores/caudais. É barato e evita grande parte das falhas prematuras.

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