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Porque a instalação mal feita custa mais a longo prazo

Casal observando ar condicionado na parede, segurando controlo remoto. Mesa com documentos em primeiro plano.

Numa tarde quente de Agosto, num T2 em Lisboa, um casal mostrou-me o comando com um ar de derrota: “Está nos 18°C há uma hora e continua abafado.” A instalação de ar condicionado tinha sido feita “num dia”, a correr, e os custos ocultos começaram a aparecer onde ninguém os tinha posto no orçamento: na conta da luz, nas paredes marcadas e nas noites mal dormidas. É por isso que uma instalação mal feita custa mais a longo prazo - não pelo que se paga no dia, mas pelo que se vai pagando sem dar por isso.

O mais frustrante é que, no início, até parece que ficou tudo bem. O aparelho liga, sopra ar fresco, a app mostra números, e a vida continua.

Depois vem o resto: ruídos, cheiros estranhos, água a pingar, variações de temperatura, e aquela sensação de que o equipamento “não tem força”, quando na verdade está a lutar contra um erro de base.

O “funciona” não é o mesmo que “está bem feito”

Uma instalação correcta é invisível. Não se ouve, não pinga, não deixa manchas, não obriga a arrefecer a casa toda para conseguir dormir num quarto. E, sobretudo, não pede a um compressor para trabalhar no limite todos os dias como se fosse normal.

Numa instalação apressada, o objectivo é terminar. Numa instalação profissional, o objectivo é garantir desempenho e durabilidade. A diferença não se vê na fotografia final, mas sente-se no uso diário, mês após mês.

Há sinais clássicos de “está a dar, mas está torto”: o aparelho desliga e liga muitas vezes, a divisão nunca estabiliza, o ar sai frio mas o conforto não chega, e o barulho aumenta quando a unidade exterior entra em esforço.

Onde nascem os custos ocultos (e porque aparecem tarde)

Os custos ocultos raramente vêm em forma de factura “Instalação mal feita - 250€”. Vêm em pequenas penalizações repetidas: mais consumo, mais avarias, mais deslocações, mais desgaste, mais improvisos.

E quase sempre chegam com atraso, quando já é difícil ligar os pontos ao dia da instalação.

1) Energia: a conta sobe antes de o problema ser óbvio

Quando há erros de dimensionamento, má colocação das unidades, perdas na tubagem ou falhas no vácuo, o sistema perde eficiência. O resultado é simples: para obter o mesmo conforto, o equipamento trabalha mais tempo e com mais esforço.

Não precisa de ser dramático para doer. Bastam 2–3 horas a mais por dia, durante semanas, para transformar um “bom negócio” numa despesa fixa que nunca mais baixa.

2) Drenagem e inclinações: a água encontra sempre caminho

Um tubo de condensados mal dimensionado, com pouca inclinação ou com sifonagem mal pensada, não falha logo. Primeiro pinga raramente. Depois faz manchas. Depois dá cheiro a humidade. E, quando se dá por ela, já há tinta estragada, rodapés a abrir, ou bolor a instalar-se onde o ar “devia” estar mais seco.

O mais irónico é que, muitas vezes, a reparação não é cara tecnicamente - o caro é o estrago à volta.

3) Tubagem e ligações: o barato que encurta a vida do equipamento

Uma união mal apertada, uma flange mal feita, uma tubagem subdimensionada ou demasiado longa, e o sistema passa a viver numa espécie de “atrito” permanente. Pode funcionar meses assim. Mas vai envelhecer mais depressa: mais vibração, mais ruído, mais aquecimento do compressor, mais probabilidade de fuga de refrigerante.

E quando há perda de gás, a conversa muda: já não é “afinar”, é diagnosticar, recuperar, testar, reparar, voltar a carregar. Cada passo custa tempo e dinheiro, e nem sempre fica perfeito à primeira.

4) Garantias e responsabilidades: a zona cinzenta que ninguém quer

A parte chata do longo prazo é esta: quando algo falha, começa o pingue-pongue. O instalador diz que é do equipamento. A marca pede relatório de instalação. Aparecem perguntas sobre vácuo, teste de estanquidade, tubagem, registos.

Se a instalação foi feita sem procedimentos, sem documentação e sem cuidado, a garantia pode ficar cheia de “ses”. E um “se” na garantia costuma ser um custo inteiro no seu bolso.

O que uma boa instalação faz que quase ninguém valoriza no dia

O curioso é que as melhores decisões de instalação são as menos visíveis. Não são o “suporte bonito” nem a calha mais larga. São as coisas aborrecidas que evitam dores de cabeça.

Uma instalação de qualidade tende a incluir:

  • Dimensionamento adequado (nem fraco, nem exagerado para “dar conta”).
  • Localização pensada para circulação do ar e conforto real (não só “onde dá jeito furar”).
  • Vácuo correcto e teste de estanquidade antes de abrir válvulas.
  • Drenagem com inclinação, isolamento e percurso sem improvisos.
  • Fixação com amortecimento de vibrações e cuidados com ruído.
  • Acabamento limpo, mas sem sacrificar o técnico pelo estético.

Isto não é luxo. É o básico que separa um sistema eficiente de um sistema cansado.

O “momento verdade”: quando compensa corrigir em vez de aguentar

Há uma fase em que as pessoas se habituam ao mau funcionamento. Dormem com o comando ao lado. Ligam mais cedo. Desligam porque “faz muito frio”, voltam a ligar porque “fica abafado”. Vão gerindo.

E é aí que a instalação mal feita sai mais cara: quando começa a moldar a rotina, a casa e a carteira, sem nunca se assumir como o problema principal.

Se reconhecer um destes cenários, vale a pena pedir uma avaliação:

  • A unidade interior pinga ou deixa marcas na parede.
  • O ar condicionado “nunca chega lá”, mesmo em divisões pequenas.
  • A unidade exterior faz ruído anormal ou vibra muito.
  • Há cheiro a mofo quando liga.
  • A conta de electricidade mudou de patamar desde a instalação.
  • Já foi “carregado com gás” mais do que uma vez.

Corrigir cedo costuma ser menos invasivo: ajustar drenagens, rever tubagens, melhorar isolamento, reposicionar sensores, reforçar fixações. Corrigir tarde é lidar com danos, avarias e substituições antecipadas.

Pequenos checkpoints que evitam grandes arrependimentos

Não é preciso ser técnico para exigir o que interessa. Antes de fechar o serviço, faça perguntas simples e observe respostas simples.

  • Peça para explicarem o percurso do dreno e onde descarrega.
  • Pergunte se foi feito vácuo e teste de estanquidade (e quanto tempo).
  • Confirme se há isolamento contínuo nas tubagens e nas ligações.
  • Veja se a unidade exterior está bem apoiada e nivelada, com anti-vibração.
  • Teste o funcionamento: arrefece, aquece, desumidifica, sem ruídos estranhos.
  • Guarde factura, modelo exacto, e registo do instalador.

São cinco minutos de conversa que podem poupar anos de “pequenas chatices” - que, no total, saem caríssimas.

No fim, não é só o preço: é o tipo de problema que compra

Quando alguém escolhe o orçamento mais baixo, quase nunca está a comprar “pior ar condicionado”. Está a comprar risco: mais probabilidade de consumo excessivo, desconforto, avarias e custos ocultos que aparecem quando já não apetece voltar ao assunto.

Uma boa instalação não é uma extravagância; é uma forma de pagar uma vez pelo conforto, em vez de pagar várias vezes pela mesma pressa. E num equipamento que se usa em ondas de calor, noites de insónia e dias de trabalho em casa, isso deixa de ser teoria muito depressa.

FAQ:

  1. Uma instalação mal feita pode aumentar muito a conta da luz? Pode. Qualquer perda de eficiência (colocação errada, fugas, tubagem inadequada, falta de vácuo) obriga o sistema a trabalhar mais tempo para o mesmo resultado.
  2. Se o ar sai frio, a instalação está necessariamente correcta? Não. “Sair frio” não garante conforto, eficiência nem durabilidade. Ciclos curtos, ruído, pingos e variações são sinais frequentes de problemas de instalação.
  3. É normal ter de “carregar gás” passado pouco tempo? Regra geral, não. Se foi necessário recarregar, pode haver fuga ou problema nas ligações/tubagem, que deve ser diagnosticado e corrigido.
  4. Vale a pena pedir uma revisão da instalação depois de feita? Vale, sobretudo se há ruídos, água, cheiros, consumo elevado ou fraca performance. Uma avaliação cedo pode evitar reparações maiores mais tarde.

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