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O problema invisível que reduz a eficiência do sistema

Técnico verifica sistema de ventilação com medidor de pressão. Dois filtros de ar estão sobre a mesa ao lado de um portátil.

Quando os sistemas avac parecem “a funcionar”, é fácil ignorar as falhas ocultas que, devagarinho, drenam desempenho em escritórios, lojas, fábricas e condomínios. O ar até sai nas grelhas e a temperatura parece aceitável, mas a conta de energia sobe e o conforto fica instável. O problema é que a perda de eficiência raramente faz barulho - instala-se como um hábito.

Normalmente começa com pequenas queixas: uma sala que nunca estabiliza, cheiros que aparecem ao fim do dia, humidade que não desaparece. A equipa ajusta o termóstato, abre mais uma difusora, “dá mais força” ao ventilador. E o sistema responde… gastando mais para entregar o mesmo.

O problema invisível: quando o sistema trabalha contra si

Em AVAC, há um tipo de desperdício que não se vê no ecrã do comando nem se resolve com “mais frio” ou “mais quente”. É o conjunto de perdas silenciosas que obriga ventiladores, compressores e caldeiras a compensar erros de distribuição, leitura e controlo. A eficiência não cai de um dia para o outro; ela escorre.

A parte frustrante é esta: muitas dessas falhas não provocam avarias imediatas. Provocam “normalidade”: equipamentos sempre a correr, ciclos mais longos, arranques frequentes, e um edifício que nunca parece totalmente confortável.

Se o seu sistema precisa de trabalhar mais horas para manter a mesma sensação térmica, há uma falha escondida a pedir atenção - mesmo que nada esteja “estragado”.

As falhas ocultas mais comuns (e o que elas fazem)

Algumas aparecem em edifícios novos; outras são típicas de instalações com anos de ajustes e remodelações. Quase todas têm o mesmo efeito: mais consumo, mais desgaste, menos controlo.

  • Filtros e baterias parcialmente obstruídos: o caudal cai, o ventilador compensa, e a troca térmica piora.
  • Correias, polias e ventiladores descalibrados: o sistema “anda”, mas fora do ponto de melhor rendimento.
  • Fugas em condutas (sobretudo em zonas técnicas e tetos falsos): ar tratado perde-se onde não serve ninguém.
  • Válvulas e registos fora de posição: demasiada água/ar num circuito, de menos noutro - e o equilíbrio desaparece.
  • Sensores mal colocados ou descalibrados: a automação toma decisões erradas com dados “bons” mas falsos.
  • Curto-circuito de ar (insuflação a voltar para o retorno): o equipamento pensa que já fez o trabalho e o espaço real fica por resolver.

Uma pista simples: quando a resposta ao desconforto é sempre “aumentar setpoint” ou “abrir horários”, está a tapar o sintoma, não a causa.

O teste rápido que muda o diagnóstico (sem “inventar” problemas)

Há uma forma prática de separar sensação de dados: medir três coisas antes de mexer em parâmetros. Não precisa de transformar isto numa auditoria gigante; precisa de um retrato honesto do que está a acontecer.

  1. ΔT (diferença de temperatura) nas baterias e/ou entre insuflação e retorno: se o salto térmico é baixo, pode haver caudal errado, sujidade, ou troca deficiente.
  2. Pressões (filtros, condutas, ventiladores): pressão a mais onde não devia costuma ser restrição; pressão a menos costuma ser fuga ou falta de caudal.
  3. Humidade e CO₂ em zonas representativas: quando a qualidade do ar “oscila”, muitas vezes o problema é distribuição e controlo, não potência.

O detalhe que apanha muita gente: sensores de retorno no sítio “mais conveniente” (perto de fontes de calor, corredores, tetos estratificados) podem levar o sistema a acreditar que o edifício está bem quando não está.

Porque é que isto custa tanto (mesmo sem avaria)

As falhas invisíveis não só aumentam kWh; elas encurtam vida útil. Equipamentos a ciclar com frequência, ventiladores a trabalhar fora da curva, válvulas a “caçar” setpoints… tudo isso cria desgaste, ruído e manutenção reativa.

E há um custo humano que raramente entra na folha de Excel: produtividade. Um espaço que alterna entre demasiado frio e abafado faz as pessoas mexerem em janelas, aquecedores portáteis e improvisos. Esse comportamento desarruma ainda mais o equilíbrio do sistema.

Sinal no edifício Suspeita provável Próximo passo
Salas “quase” confortáveis, mas nunca estáveis Sensores/controlo ou balanceamento Verificar calibração e posições de registos
Conta de energia a subir sem mudanças de ocupação Restrição, fugas, horários excessivos Medir pressões e rever programação
Queixas em zonas específicas (cantos, pisos) Distribuição/condutas Teste de caudal e inspeção a fugas

O que fazer agora: três ações de alto impacto

Não é glamour. É manutenção com método - e costuma pagar-se depressa quando o sistema volta ao ponto certo.

  • Limpar e confirmar caudais antes de afinar controlos: filtros, baterias, drenos de condensados, e verificação de ventiladores. Controlar um sistema “sujo” é como alinhar direção com pneus moles.
  • Rever sensores críticos: localização, calibração, e coerência entre leitura e realidade. Um sensor errado cria uma cadeia inteira de decisões erradas.
  • Balanceamento e verificação de fugas: especialmente após obras, mudanças de layout ou adição de equipamentos. Pequenas fugas em condutas longas somam-se depressa.

Se tiver BMS/SCADA, aproveite o que já existe: tendências (trends) de temperatura, válvulas a 90–100% por longos períodos, ventiladores sempre no máximo, e arranques repetidos são “impressões digitais” de falhas ocultas.

Um bom princípio para não voltar ao mesmo

Em vez de perguntar “o equipamento tem capacidade?”, faça primeiro esta pergunta: o que produzimos está a chegar ao sítio certo, na quantidade certa, medido da forma certa? Quando a resposta é “não sei”, quase sempre há eficiência a perder-se nas sombras.

O melhor dos problemas invisíveis é que, quando se encontram, o edifício parece mudar de humor. Não por magia - mas porque os sistemas avac deixam de lutar contra a instalação e voltam a fazer o que prometem: conforto consistente com consumo controlado.

FAQ:

  • As falhas ocultas aparecem mesmo em instalações novas? Sim. Sensores mal posicionados, registos fora de ajuste e erros de comissionamento são comuns e passam despercebidos quando “funciona mais ou menos”.
  • Como sei se o problema é falta de potência ou distribuição? Se há zonas muito diferentes entre si (umas boas, outras más), tende a ser distribuição/controlo. Falta de potência costuma falhar “por igual” quando há picos.
  • Vale a pena mexer em setpoints para poupar? Só depois de garantir caudais, sensores e balanceamento. Setpoints “apertados” num sistema desequilibrado muitas vezes aumentam consumo e queixas.
  • Com que frequência devo verificar calibração de sensores? Em geral, pelo menos anual em sensores críticos (temperatura/humidade/pressão), e sempre que há queixas persistentes ou intervenções na rede.
  • O que dá retorno mais rápido? Limpeza + verificação de caudais e fugas, seguida de revisão de horários e controlo. É onde a maioria das perdas escondidas se concentra.

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