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O erro que encurta a vida do compressor

Homem ajusta termostato na parede com aparelhos de medição na mão. Unidade de ar condicionado visível do lado de fora.

O erro raramente parece um erro quando está a acontecer. Um compressor a trabalhar numa oficina, numa fábrica, num armazém ou numa instalação AVAC aguenta muito - até ao dia em que o stress mecânico deixa de ser “normal” e passa a ser desgaste acelerado. Para quem paga energia, manutenção e paragens, este detalhe é o tipo de coisa que encurta a vida do equipamento sem fazer barulho.

Reparei nele pela primeira vez num fim de tarde, com o chão ainda húmido da lavagem e o ar cheio daquele cheiro a óleo quente e pó metálico. O compressor arrancava e parava como se estivesse nervoso: um clique, um ronco curto, silêncio; mais um clique, mais um ronco. Ninguém tinha “mexido” em nada, diziam. E é precisamente assim que estes problemas entram: pela rotina.

O momento em que o desgaste começa a ganhar

O erro chama-se, na prática, ciclagem excessiva: arranques e paragens demasiado frequentes. Acontece quando o sistema está mal dimensionado para a procura, quando o depósito é pequeno, quando há fugas, ou quando as pressões de corte/arranque estão mal ajustadas. O compressor é bom a trabalhar; é péssimo a “saltar à corda”.

Cada arranque é um mini-choque. Há pico de corrente no motor, variação térmica rápida, impacto nos rolamentos, esforço na correia (se existir), e um pacote de vibração que se soma ao longo do tempo. O stress mecânico não aparece num gráfico bonito; aparece em folgas, em ruídos novos, em temperatura a mais e em falhas “do nada”.

Se está a pensar “mas ele liga sempre assim”, é esse o problema. A ciclagem parece normal porque o compressor continua a dar ar. Só que está a gastar a vida útil nos arranques, não nas horas de trabalho.

Porque é que ligar e desligar muitas vezes é pior do que trabalhar mais

Um compressor foi feito para atingir regime e manter estabilidade. Quando não chega a estabilizar, o sistema vive em transição: quente-frio, pressão a subir-descer, motor a puxar corrente a mais, lubrificação a tentar acompanhar. É como conduzir sempre em arranca‑pára, sem nunca entrar numa autoestrada.

Sinais típicos de ciclagem excessiva (os que aparecem antes do estrago):

  • Arranques muito próximos (minutos ou até segundos entre ciclos).
  • Pressão “serrada” a oscilar entre corte e arranque sem consumo real proporcional.
  • Temperatura do cabeçote/carcaça a subir de forma irregular.
  • Disjuntores, contactores ou relés térmicos a atuar com mais frequência.
  • Mais ruído no arranque, mais vibração, mais “batida” mecânica.

E há um custo escondido: energia. O arranque consome mais, e a eficiência cai quando se trabalha fora do regime.

O que costuma estar por trás (e o que dá para corrigir sem drama)

Quase nunca é uma única causa. Normalmente é um conjunto pequeno de coisas “toleráveis” que, juntas, fazem o compressor sofrer.

Três culpados recorrentes:

  1. Fugas de ar comprimido
    Um assobio discreto numa linha ou num engate rápido pode obrigar o compressor a repor pressão o dia inteiro. O sistema interpreta fuga como consumo.

  2. Depósito subdimensionado ou inexistente
    O reservatório é o amortecedor. Se for pequeno, a pressão cai depressa e obriga a mais ciclos.

  3. Pressostato mal ajustado (ou mal escolhido)
    Diferença muito curta entre pressão de arranque e de corte = liga/desliga em loop. Às vezes é “para ter sempre pressão alta”, e paga-se com arranques constantes.

Há ainda o clássico: consumo muito variável (picos de ferramenta pneumática) num compressor sem controlo adequado. Funciona… mas à pancada.

“O compressor não morre por trabalhar. Morre por estar sempre a recomeçar.”

Um plano simples para reduzir stress mecânico e prolongar a vida

Pense nisto como três âncoras práticas, sem heroísmos nem teoria a mais.

  • Encontrar e tratar fugas primeiro
    Comece pelo óbvio: engates, filtros, pontos de drenagem, válvulas. Um teste com espuma/solução de fugas e um passeio pela rede em silêncio costumam pagar-se na mesma semana.

  • Aumentar a “inércia” do sistema
    Se o depósito é pequeno, considere aumentar capacidade (ou adicionar um reservatório auxiliar). Dá tempo ao compressor para fazer ciclos mais longos e menos frequentes.

  • Ajustar corretamente pressões de arranque/corte
    Um diferencial um pouco maior reduz ciclos sem “matar” a pressão útil. Não é adivinhar: ajuste com base no consumo real e na ferramenta/processo mais exigente.

Se o seu compressor tem variador de velocidade (VSD) ou controlo mais avançado, confirme se está parametrizado para a procura. Um VSD mal afinado também pode “andar à caça” da pressão e criar instabilidade.

O que fica para levar daqui

A vida de um compressor não encurta só por idade; encurta por padrão. Quando ele entra em ciclagem excessiva, o stress mecânico acumula-se em silêncio e aparece tarde - normalmente no dia em que não convém.

Faça uma coisa esta semana: olhe para o comportamento, não apenas para a pressão no manómetro. Se está a ligar e desligar demais, o sistema está a pedir uma correção simples antes de pedir uma avaria cara.

Ponto chave O que observar Ganho direto
Ciclagem excessiva Muitos arranques por hora Menos desgaste e falhas
Fugas e depósito Pressão cai “sem razão” Menos consumo e ruído
Ajuste de pressões Diferencial curto no pressostato Ciclos mais longos e estáveis

FAQ:

  • O meu compressor liga muitas vezes, mas mantém a pressão. É mesmo um problema? Sim, porque os arranques repetidos aumentam o desgaste (motor, contactores, rolamentos) e a conta de energia, mesmo que a pressão pareça “boa”.
  • Como sei se é fuga ou consumo real? Faça um teste fora do horário de produção: com consumo desligado, se a pressão desce e o compressor arranca, há fuga (ou retorno por válvula).
  • Aumentar o depósito resolve sempre? Ajuda muito a reduzir ciclos, mas não substitui reparar fugas nem corrigir ajustes. É uma peça do conjunto.
  • Posso simplesmente subir a pressão de corte para ligar menos vezes? Pode piorar: aumenta esforço e temperatura. O objetivo é estabilidade com o mínimo de pressão necessária, não “mais pressão”.
  • Quando devo chamar assistência técnica? Se há disparos elétricos, aquecimento anormal, ruído metálico no arranque, ou se o ajuste de pressões não faz diferença - pode haver válvulas, pressostato ou componentes mecânicos já afetados.

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