Instalar um aparelho e sentir logo aquele ar fresco é uma espécie de alívio moderno. Mas na instalação de ar condicionado, o que mais decide o conforto e a conta ao fim do mês é a qualidade de instalação - e quase ninguém fala do erro que a destrói sem fazer barulho. Não é um “pormenor técnico”; é um hábito de obra que parece inofensivo… até deixar de parecer.
Vi isto acontecer num T2 em Lisboa, numa tarde húmida de Junho, com o sol a bater nos estores como se quisesse entrar à força. O cliente só dizia: “Ele arrefece, mas nunca fica bem. E faz um cheiro estranho de vez em quando.” O instalador anterior tinha feito o essencial. Só tinha falhado no que quase todos subestimam.
O erro que parece pequeno: ignorar o declive e a drenagem do condensado
O erro mais subestimado na instalação é tratar o escoamento da água (condensados) como um detalhe: tubo “quase” com declive, percurso demasiado longo sem critério, sifão mal pensado, ou descarga para um ponto que não foi verificado. Parece só água. Só que é água dentro da sua casa, a trabalhar devagar.
Quando o declive não é contínuo, a água acumula-se. Primeiro, ouve-se um gorgolejo discreto. Depois, aparecem pingos, maus cheiros, manchas no pladur, bolor em cantos que nunca tiveram nada. E, em muitos casos, a unidade interior começa a “suar” por fora como se estivesse cansada.
Há uma ironia aqui: o ar condicionado pode estar a refrigerar bem e, ainda assim, a instalação estar errada. É por isso que este erro passa nos primeiros dias e explode quando já ninguém quer mexer em obras.
Quando o “cheiro a mofo” não é do aparelho - é do caminho da água
O cheiro costuma ser o primeiro sinal socialmente embaraçoso. Chega com o ligar, demora uns minutos, e instala-se no ar como uma desculpa que não cola. A causa frequente não é “falta de gás” nem “máquina fraca”. É água parada no circuito de drenagem, a ganhar biofilme, a puxar odores do esgoto por ausência de sifão, ou a recuar porque a bomba/gravidade não está a vencer o percurso.
E depois há o segundo sinal, mais cruel: a intermitência. Num dia está perfeito, no outro pinga. Num fim de semana não acontece nada, na segunda-feira aparece uma poça. Isso faz as pessoas duvidarem de si próprias - e faz técnicos apressados dizerem “é normal”.
Não é normal. É um sistema que está a funcionar no limite do improviso.
“Se o tubo não respeita a gravidade, a gravidade cobra a diferença dentro de casa.”
Como este erro acontece (e porque passa despercebido na hora)
Acontece por pressa, por estética e por falta de verificação. O tubo fica escondido, a parede fecha, o teste é “deitar um copo de água” e pronto. Só que a água do copo não simula horas de condensação, nem o comportamento com humidade alta, nem o retorno de odores quando a coluna de água seca.
Três cenários típicos:
- Declive interrompido: um “barriguinha” no tubo cria uma bolsa de água que nunca sai toda.
- Descarga mal escolhida: escoar para um ralo sem sifão funcional, ou para um ponto que seca e deixa entrar cheiro.
- Percurso longo com perdas: muitos metros, muitas curvas, e a água começa a ficar lenta, ruidosa e instável.
Vamos ser honestos: ninguém mede declives com carinho quando está a tentar “deixar tudo pronto hoje”. Mas é precisamente aqui que a qualidade de instalação se separa da instalação “que dá”.
O que pedir ao instalador (sem falar como engenheiro)
Não precisa de decorar normas para fazer boas perguntas. Precisa de fazer perguntas que obriguem a ver o caminho da água, não só o caminho do cobre.
Leve este guião simples:
- “Para onde vai descarregar o condensado?” Peça para ver o ponto final (ralo, exterior, coletor).
- “O tubo tem declive sempre?” “Sempre” é a palavra. Não “quase sempre”.
- “Vai levar sifão?” Se descarrega para esgoto/ralo, quer impedir retornos de cheiro.
- “Vamos testar com a máquina a trabalhar?” Idealmente em frio, tempo suficiente para gerar condensado real.
Se houver bomba de condensados, a pergunta muda ligeiramente: onde está instalada, como é feito o anti-retorno, e o que acontece em falha de energia. Uma boa instalação assume o pior cenário e evita que esse cenário vire uma pintura nova no teto.
Pequenos sinais de boa instalação que, na prática, valem dinheiro
O dinheiro aqui não é só energia. É manutenção, chamadas técnicas, paredes abertas, tempo perdido e desconforto em dias em que o conforto devia ser automático.
Procure estes sinais:
- O instalador mostra o percurso (mesmo o que vai ficar escondido) e explica-o sem defensiva.
- Existe acesso para inspeção/limpeza quando faz sentido (sobretudo em bombas).
- O escoamento é silencioso: sem gorgolejos, sem “puxões” de ar.
- A unidade interior fica nivelada e bem fixada, para não criar inclinações que forcem a água a ir para onde não deve.
No fim, uma instalação de ar condicionado não é só pôr a máquina a soprar frio. É desenhar dois caminhos: o do refrigerante e o da água. Um deles é invisível - e é por isso que tanta gente o subestima.
| Ponto-chave | O que verificar | Porquê interessa |
|---|---|---|
| Drenagem com declive contínuo | Tubo sem “barrigas” e sem contradeclives | Evita pingos, ruídos e água parada |
| Descarga e sifão | Ponto final validado e anti-odores | Evita cheiros e retornos do esgoto |
| Teste real | Máquina a trabalhar tempo suficiente | Deteta problemas que o “copo de água” não apanha |
FAQ:
- O meu ar condicionado faz “glup glup”. É grave? É um sinal clássico de drenagem a puxar ar/água de forma irregular, muitas vezes por declive mal feito ou sifão inadequado. Deve ser revisto antes de causar fugas.
- Se está a arrefecer bem, posso ignorar a drenagem? Não. A refrigeração pode estar ótima e, ainda assim, a água estar a acumular ou a sair para o sítio errado, criando bolor e danos.
- É normal pingar água pela unidade interior? Não. Um split pode pingar para o exterior (na unidade exterior) em certos modos, mas pingos no interior indicam obstrução, má drenagem ou montagem desnivelada.
- Bomba de condensados resolve tudo? Ajuda quando não há declive por gravidade, mas não substitui uma instalação bem pensada. Também exige montagem correta e manutenção para evitar falhas e ruído.
- O que devo pedir por escrito no orçamento? Identificação do ponto de descarga, inclusão (ou não) de sifão/bomba, e teste de funcionamento com verificação de drenagem. Isso protege a qualidade de instalação e evita “surpresas” depois da parede fechada.
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