Instalei ar condicionado numa casa antiga por uma razão banal: dormir melhor no Verão e não tremer no Inverno. O que eu não esperava era que as questões negligenciadas fossem quase sempre as mesmas - e que a maior delas não fosse “qual marca” nem “quantos BTU”. É um erro silencioso que encurta a vida do equipamento, aumenta a conta da luz e estraga o conforto sem dar alarme.
A pista apareceu num detalhe pequeno: a sala arrefecia rápido, mas o ar parecia pesado, e o aparelho ligava e desligava como se estivesse nervoso. Um técnico olhou, mediu duas coisas, e disse uma frase que eu ouvi repetida depois em vários prédios: “O problema aqui não é potência. É ar a mais no sítio errado e ar a menos onde interessa.”
O erro mais ignorado: tratar o ar condicionado como “caixa fria”, não como sistema
Muita gente compra e instala como se fosse simples: uma unidade, um comando, pronto. Só que ar condicionado é um sistema de troca de calor e de circulação de ar, e o que manda nele é o circuito invisível: entrada e saída de ar, renovação, estanquidade, drenagem, e a forma como a casa “respira”.
O erro clássico é dimensionar pelo tamanho da divisão e ignorar o resto. A divisão tem 20 m², logo “X BTU”, e siga. Mas a carga térmica real não vive só no chão: vive nas janelas a poente, no isolamento do tecto, nas infiltrações pelas caixas de estores, no número de pessoas, nos equipamentos ligados, e até na porta que fica meia aberta para o corredor.
Quando isto falha, o aparelho até consegue arrefecer - mas trabalha torto. Faz ciclos curtos, não desumidifica como devia, cria correntes de ar desconfortáveis e passa a vida a compensar uma casa que está a perder energia em silêncio.
Os sinais de que está tudo “quase bem” (e por isso ninguém mexe)
O mais perigoso é quando não há um defeito óbvio. Há só um desconforto difuso e contas a subir, e as pessoas habituam-se como quem se habitua a um zumbido.
Procure este trio:
- O equipamento liga e desliga muitas vezes, mesmo com temperatura estável.
- O ar está fresco, mas a humidade parece colar à pele (ou há cheiro a “cave” ao fim do dia).
- Há zonas da casa que nunca acertam: um quarto gelado, um corredor quente, uma sala que só fica boa perto da unidade.
E depois há o pequeno teatro do comando: baixar para 18 ºC “só para puxar mais”. Isso não puxa mais; só pede um alvo mais baixo. Se o sistema está mal pensado, vai continuar a correr atrás do próprio rasto.
Porque isto acontece: três decisões apressadas na instalação
Quase sempre é uma mistura de pressa e simplificação. O instalador quer fechar o trabalho num dia; o cliente quer “que se veja pouco”; e ninguém faz perguntas chatas.
As três decisões que mais estragam tudo:
- Dimensionamento por regra rápida, sem cálculo de carga térmica e sem olhar para exposição solar e isolamento.
- Localização da unidade interior por estética, que cria jacto directo para o sofá ou para a cama, ou deixa “bolsas” de ar parado.
- Drenagem e tubagens feitas no limite, com inclinações mínimas e percursos longos que depois dão origem a pingos, odores e perda de eficiência.
Há uma quarta, mais discreta: fechar a casa como se fosse um termo e esquecer que as pessoas respiram. Sem alguma renovação (controlada), o conforto fica estranho e a qualidade do ar interior degrada-se - e culpa-se o ar condicionado.
“O cliente pede frio. Mas o que ele quer é conforto. E conforto é temperatura + humidade + circulação + silêncio.”
Um “reset” prático: como corrigir sem entrar em obras grandes
Não precisa de arrancar paredes para melhorar muito. Precisa de medir, ajustar e parar de adivinhar. Um bom ponto de partida é tratar o sistema como um conjunto de hábitos - três âncoras simples.
Âncora 1: medir antes de mexer
Peça (ou faça) medições básicas: temperatura e humidade em 2–3 pontos da divisão, e observe ciclos (quanto tempo está ligado até desligar). Se a humidade fica alta com a casa “fresca”, há um problema de dimensionamento, de circulação ou de infiltração.
Âncora 2: atacar perdas fáceis
Antes de comprar mais potência, reduza a carga:
- vedar caixas de estores e frestas evidentes;
- usar cortinas térmicas/blackout em janelas com sol directo;
- garantir portas a fechar bem onde há grandes diferenças de temperatura.
Âncora 3: afinar uso e manutenção como rotina, não como emergência
Filtros sujos e permutadores carregados não “fazem menos frio”; fazem mais ruído, mais consumo e pior ar.
- limpar filtros na cadência certa (muitas casas: mensal na época de uso);
- verificar escoamento de condensados (cheiros e pingos são aviso);
- manter setpoints realistas (24–26 ºC no Verão costuma ser o ponto doce para conforto e consumo).
O detalhe que muita gente ignora: modo “DRY” (desumidificação) pode ser melhor do que baixar graus quando o problema é humidade. O ar fica mais leve, e de repente a mesma temperatura parece mais confortável.
| Ponto-chave | O que fazer | Benefício para si |
|---|---|---|
| Dimensionamento real | Considerar sol, isolamento, infiltrações | Menos ciclos curtos, menos consumo |
| Circulação e jacto de ar | Ajustar posição/deflectores e obstáculos | Conforto sem “vento” na cara |
| Humidade como métrica | Medir e usar desumidificação quando faz sentido | Ar mais leve, menos cheiro e bolor |
FAQ:
- O ar condicionado pode deixar a casa com cheiro estranho? Pode. Normalmente é drenagem/condensados, sujidade no permutador ou falta de manutenção, não “o gás”.
- Mais BTU resolve uma divisão que nunca fica confortável? Às vezes piora. Se o problema for infiltração, má circulação ou ciclos curtos, mais potência pode dar mais liga/desliga e menos desumidificação.
- Porque é que arrefece rápido mas fico desconfortável? Muitas vezes é humidade alta e/ou jacto directo de ar. Conforto não é só temperatura.
- Devo deixar sempre ligado? Depende da casa e do uso. Em muitas situações, manter uma temperatura estável com boa estanquidade pode ser eficiente; noutros casos, uso por períodos com setpoints sensatos é melhor. O importante é evitar extremos e “puxões” desnecessários.
- Qual é o primeiro passo mais barato? Limpar filtros e verificar drenagem, depois vedar perdas óbvias (caixas de estores e frestas). Só depois pense em trocar equipamento.
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