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O detalhe que define se o sistema vale o investimento

Pessoa analisa documento impresso em mesa com portátil, calculadora e café, destacando informações importantes com marcador.

Assinei um contrato para substituir os sistemas avac de um pequeno edifício de escritórios, daqueles onde a sala de reuniões fica sempre “quase” confortável e a receção vive num microclima próprio. O fornecedor falava de eficiência de custos como quem fala de inevitabilidades: menos consumo, menos avarias, mais controlo. O que ninguém disse de forma clara - e que acaba por decidir se o investimento vale mesmo a pena - estava num detalhe mais pequeno do que um compressor.

Nas primeiras semanas, tudo parecia bem: ruído baixo, temperaturas estáveis, uma app bonita para o telemóvel. Depois vieram os “ajustes finos”, os pedidos de acesso, as chamadas a meio da tarde, e aquele clássico: “Isto é normal no arranque”. É aí que se percebe se comprou um sistema ou se comprou uma promessa.

O detalhe que separa “funciona” de “vale a pena”

O detalhe é simples de dizer e chato de garantir: a qualidade do comissionamento e da afinação em operação real. Não é a marca, nem a potência no catálogo, nem o número de zonas no ecrã. É o momento em que alguém mede, confirma e deixa o sistema a trabalhar como foi desenhado - com o edifício ocupado, com portas a abrir, com pessoas a queixarem-se (porque vão queixar-se), com rotinas e horários.

Sem isto, os sistemas avac até podem aquecer e arrefecer. Mas fazem-no com desperdício, ciclos curtos, setpoints “em guerra” e ventilação mal doseada. E a eficiência de custos fica reduzida a uma frase bonita na proposta.

Pense nisto como um “clique” que se ouve ou não se ouve. Quando está bem comissionado, o edifício acalma. Quando está mal, o edifício anda sempre a correr atrás de si próprio.

Onde o dinheiro se perde sem ninguém dar conta

As perdas raramente vêm do grande desastre. Vêm dos pequenos desvios repetidos todos os dias, como um gotejar que ninguém vê porque a sala, no geral, está “aceitável”.

Alguns exemplos típicos que aparecem quando o comissionamento é fraco (ou apressado):

  • Horários errados: o sistema liga cedo demais, desliga tarde demais, ou nunca entra em modo de redução. Parece pouco. No final do mês, é muito.
  • Sensores mal colocados ou não calibrados: um sensor ao sol “manda” o resto do piso arrefecer; outro perto de uma porta acha que o inverno dura o dia inteiro.
  • Caudais de ar fora do previsto: ventilação a mais (custo energético e desconforto) ou a menos (CO₂, queixas, produtividade a cair).
  • Setpoints desalinhados: aquecimento e arrefecimento a competir em zonas diferentes, porque alguém “resolveu” uma reclamação sem olhar para o todo.
  • Recuperação de calor ignorada: a máquina tem a função, mas não está parametrizada, ou ficou em bypass “temporário”.

Nada disto aparece num folheto. Aparece na fatura e no humor da equipa.

“O sistema não falhou. Só nunca chegou a ser posto a trabalhar como deve ser.”

Como saber, antes de assinar, se vai haver comissionamento a sério

A parte difícil é que toda a gente diz que faz. A parte útil é que dá para testar, com perguntas simples e pedidos concretos.

Peça estas três coisas, por escrito, no âmbito do projeto:

  1. Plano de comissionamento com medições: não “verificar funcionamento”, mas medir caudais, temperaturas, pressões, consumos, e registar resultados.
  2. Período de afinação com o edifício ocupado: duas a quatro semanas após entrada em funcionamento, com visitas planeadas e ajustes documentados.
  3. Entrega de “as-built” e parâmetros: esquemas atualizados, lista de setpoints, horários, lógicas de controlo, alarmes e acessos.

E depois faça a pergunta que corta o nevoeiro: quem é o responsável final por garantir desempenho - o instalador, o fabricante, ou um comissionador independente? Se a resposta for difusa, o risco é seu.

O truque prático: procurar “rotinas”, não features

Muita gente compra sistemas avac como se comprasse um motor: mais eficiência nominal, mais tecnologia, mais modos. Só que o que paga o investimento é a rotina diária: ligar, modular, ventilar, recuperar, reduzir, voltar a subir - sem drama.

Três “âncoras” que costumam dar retorno sem pedir heroísmo:

  • Horários e modos bem fechados (ocupação, pré-aquecimento/pré-arrefecimento, redução noturna/fins de semana).
  • Setpoints simples e coerentes (menos exceções; mais consistência entre zonas).
  • Manutenção pensada para o mundo real (filtros acessíveis, registos, alarmes úteis, não ruído).

Chove, há feriados, há semanas caóticas. Um sistema que só é eficiente quando alguém está a vigiar todos os dias não é eficiente; é exigente.

O que isto deixa na mesa: conforto, queixas e números

Quando o comissionamento é bem feito, nota-se em três sítios ao mesmo tempo. Primeiro, menos queixas (ou queixas mais específicas, que se resolvem rápido). Depois, mais estabilidade: menos picos, menos “sopros” agressivos, menos salas que mudam de humor a meio da reunião. Por fim, números mais previsíveis: consumos com padrão, não com sustos.

E há um efeito lateral que quase ninguém vende: a equipa deixa de “negociar com o termóstato” como se fosse uma política interna. O edifício fica mais silencioso - em decibéis e em fricção.

Ponto-chave Detalhe Ganho prático
Comissionamento real Medir, ajustar e documentar em operação Eficiência de custos sustentada
Controlo bem afinado Horários, setpoints, lógicas coerentes Menos ciclos e desperdício
Entrega completa As-built + parâmetros + acessos Menos dependência do fornecedor

FAQ:

  • O que é exatamente “comissionamento” em sistemas avac? É o processo de verificar com medições e testes que o sistema foi instalado e configurado para cumprir o desempenho previsto (conforto, qualidade do ar e consumo), e não apenas “ligar”.
  • Vale a pena pagar por comissionamento independente? Muitas vezes sim, sobretudo em edifícios maiores ou com várias zonas. Um terceiro reduz conflitos de interesse e costuma apanhar erros que ficam caros no dia a dia.
  • Como confirmo a eficiência de custos sem esperar um ano? Compare consumos normalizados (por horários e ocupação) antes/depois, e peça tendências de operação: tempos de funcionamento, número de arranques, temperaturas de ida/retorno e alarmes.
  • A tecnologia (BMS, app, IA) não resolve isto? Ajuda, mas não substitui a afinação. Um controlo avançado a gerir dados errados só automatiza o desperdício.
  • Qual é o sinal mais claro de que algo ficou mal afinado? Queixas recorrentes “de um lado está frio, do outro está quente”, muitas correções manuais, e consumo que não estabiliza após o período de arranque.

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