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O barulho estranho do ar condicionado é um aviso — não ignore

Homem de pijama sentado na cama a usar o telemóvel, quarto iluminado por candeeiro, janela aberta ao fundo.

Há noites em que o ar condicionado parece mudar de personalidade: de repente, no silêncio do quarto, surge um estalido, um zumbido mais grosso ou um “clac” metálico que não estava lá ontem. Muitas vezes, o som vem do compressor, a peça que faz o sistema trabalhar a sério, e é por isso que este aviso interessa - ignorá‑lo pode transformar uma pequena afinação numa avaria cara (e num verão sem descanso).

O problema é que os ruídos estranhos são intermitentes: aparecem quando se liga, desaparecem quando alguém olha, voltam às três da manhã. Mas quase sempre há um padrão, e esse padrão costuma apontar para manutenção em falta, instalação a precisar de ajustes ou desgaste de componentes.

Porque é que um barulho “novo” raramente é inocente

O ar condicionado faz sons normais: o ar a passar, o ventilador a arrancar, um clique do relé, água a pingar no dreno. O que merece atenção é a mudança - o som que não fazia parte da “assinatura” habitual do aparelho.

Ruído novo é, muitas vezes, fricção, folga, vibração ou esforço excessivo. E esforço excessivo, num sistema de refrigeração, tende a acumular: piora com o calor, com filtros sujos e com falta de limpeza nas unidades.

Um bom teste mental: se o som te faz baixar o volume da televisão, vale a pena investigar.

O mapa rápido dos sons (e o que costumam querer dizer)

Nem todos os barulhos apontam para o mesmo problema. Usa isto como triagem, não como diagnóstico final.

Zumbido contínuo ou “ronco” que aumenta com o tempo

  • Possível causa: ventilador desequilibrado, rolamentos a gastar, suporte a vibrar, ou compressor a trabalhar sob carga.
  • O que observar: ar menos frio, aparelho a desligar e ligar com frequência, contas mais altas.

Estalidos e “clac” repetidos, especialmente ao ligar/desligar

  • Possível causa: dilatação de plásticos (normal), mas também relés/contactor a falhar, tampas soltas ou fixações com folga.
  • O que observar: cheiro a aquecido, falhas ao arrancar, luzes a piscar no painel.

Assobio agudo ou chiado (tipo “fuga”)

  • Possível causa: restrição no fluxo de ar (filtro/serpentina sujos), ou fuga no circuito de refrigerante (mais sério).
  • O que observar: gelo na unidade interior, pouca potência de arrefecimento, ruído que piora com a potência.

Batidas, vibração forte, “martelar” na parede

  • Possível causa: suportes mal fixos, tubagens a tocar na parede, unidade exterior desnivelada, ventoinha a bater na grelha.
  • O que observar: vibração no móvel/parede, ruído maior em dias de vento.

O que podes verificar hoje, sem abrir o aparelho

Há uma fronteira clara: limpeza e observação, sim; desmontagens e medições do circuito, não. Estas verificações resolvem uma fatia grande dos “barulhos misteriosos”.

1) Confirma se é vibração e não “avaria”

Encosta a mão (com cuidado) à tampa plástica da unidade interior e a uma secção da parede ao lado. Se o som muda quando fazes pressão leve, é provável que seja ressonância ou fixação.

  • Verifica se a unidade interior está bem assente e se não há folgas na tampa frontal.
  • Na unidade exterior, confirma se os pés de borracha estão inteiros e se o suporte não abana.

2) Limpa ou troca os filtros (é mais importante do que parece)

Filtro entupido obriga o sistema a trabalhar mais, aumenta a temperatura interna e pode criar chiados e gelo. Lava, seca bem e volta a colocar.

  • Se o filtro estiver deformado ou quebradiço, substitui.
  • Depois, testa 20 minutos em modo frio e ouve se o ruído mudou.

3) Espreita o dreno e a bandeja de condensados

Um gorgolejar ou pingos irregulares podem ser dreno parcialmente entupido. Não forces com ar comprimido se não souberes o que estás a fazer; muitas vezes, a solução é simples: desobstruir a saída acessível e garantir inclinação correta.

4) Regista o “quando” (o detalhe que acelera o técnico)

Anota isto no telemóvel: - hora e temperatura exterior aproximada
- modo (frio/calor/desumidificação) e velocidade da ventoinha
- se o ruído aparece no arranque, em carga, ou ao desligar
- se há cheiro, gelo, ou perda de potência

Esse mini‑relatório reduz tentativas e custos.

Quando o som aponta para o compressor (e aí não convém adiar)

O compressor não costuma ser “barulhento” de repente sem razão. Se ouves um zumbido pesado na unidade exterior, acompanhado de arranques falhados (tenta ligar, desiste, tenta outra vez), é sinal de que o sistema está a lutar.

Alguns cenários comuns: - Capacitor fraco (muito frequente): o motor tenta arrancar e não consegue com força suficiente. - Sobrecarga térmica: serpentina suja, ventilação bloqueada, ou falta/excesso de refrigerante. - Componentes elétricos a falhar: contactor/relé com mau contacto pode criar cliques e aquecimento.

Aqui, adiar pode significar queimar componentes e ficar com uma reparação maior do que o necessário.

Se houver cheiro a queimado, disjuntor a disparar, ou ruído metálico forte, desliga e chama assistência.

Pequenos hábitos que evitam o “barulho de aviso” voltar

Não é glamour, mas funciona. Um ar condicionado com manutenção leve e regular faz menos ruído, dura mais e consome menos.

  • Filtros: limpeza quinzenal a mensal em época de uso intenso.
  • Unidade exterior: mantém 30–60 cm livres à volta; folhas e pó fazem o ventilador esforçar.
  • Uso inteligente: não alternar potência máxima constantemente; deixa estabilizar 15–20 minutos.
  • Manutenção profissional: pelo menos anual (ou semestral em uso muito intensivo), com limpeza de serpentinas e verificação de pressão/eletricidade.

Erros comuns que transformam um ruído pequeno num problema grande

Algumas tentativas “rápidas” pioram a situação, mesmo com boas intenções.

  • Ignorar gelo na unidade interior: é sinal de problema de fluxo de ar ou refrigerante; continuar a usar pode agravar.
  • Apertar parafusos ao acaso: podes desalinhares peças, esmagar tubagens ou criar vibrações novas.
  • Pulverizar produtos agressivos na serpentina: certos químicos corroem aletas e aumentam ruído/ineficiência.
  • Tapar a unidade exterior para “abafar o som”: reduz ventilação e faz o compressor aquecer.

O momento certo para chamar um técnico (sem esperar pelo pior)

Chama assistência quando: - o ruído é metálico, alto ou progressivo - há perda de frio/calor, gelo, ou água fora do normal - o equipamento desarma o quadro elétrico - o som vem claramente da unidade exterior e acompanha vibração forte

Quanto mais cedo, mais provável é ser um ajuste, uma limpeza profunda ou uma peça simples - e não uma cadeia de danos.

FAQ:

  • Um estalido ao ligar é sempre mau sinal? Nem sempre. Um clique único pode ser normal (relé/dilatação). O alerta é quando se torna repetido, forte, ou vem com falhas de arranque.
  • Posso continuar a usar o ar condicionado se fizer um zumbido baixo? Se o desempenho estiver normal e o som não aumentar, podes observar por 24–48 horas após limpeza de filtros. Se piorar, marca assistência.
  • Porque é que o barulho aparece mais à noite? O silêncio torna tudo mais audível, mas também há mais humidade e variações térmicas que alteram vibrações e dilatações.
  • Um chiado pode ser falta de gás? Pode, mas também pode ser filtro/serpentina sujos. Se houver gelo, pouca potência e chiado persistente, chama um técnico para despiste seguro.
  • Vale a pena “abafar” a unidade exterior com isolamento? Não. Pode reduzir ventilação e aumentar a temperatura de trabalho, o que força o sistema e pode danificar o compressor.

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