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O ar condicionado pode estar bem instalado e mesmo assim falhar

Homem ajusta ar condicionado numa mesa com controlo remoto e copo de água.

Instalei um ar condicionado numa sala virada a sul, com janelas grandes e aquele calor que se cola às paredes ao fim da tarde. Parecia tudo certo - unidade bem nivelada, tubagens novas, disjuntor dedicado - e ainda assim começaram pequenos defeitos ocultos: ruídos que apareciam só de noite, cheiro a “humidade”, e uma frescura que às vezes vinha e às vezes não. É relevante porque estas falhas raramente se apresentam como uma avaria óbvia; aparecem como desconforto, conta da luz a subir e a sensação irritante de que “não era suposto ser assim”.

Há um mito silencioso que nos engana: se ficou bonito na parede e o técnico disse “está ok”, então está resolvido. Na prática, o ar condicionado tanto pode estar bem instalado como pode estar apenas “instalado”, e essa diferença vive em detalhes que ninguém vê quando a tampa fecha. E o pior: os sinais são intermitentes, como um problema que só se confessa quando já estamos cansados.

Quando a instalação parece perfeita - e a performance não acompanha

A maioria das falhas não nasce do aparelho “ser mau”. Nasce de uma cadeia pequena de decisões: um metro a mais de tubagem, uma curva apertada, uma drenagem sem queda suficiente, um vácuo mal feito, um isolamento térmico que ficou com uma fenda. Soa a picuinhice, mas o frio é uma soma de pequenas perdas.

O que confunde é que, nos primeiros dias, tudo pode funcionar. Depois vem a primeira vaga de calor, a humidade sobe, o uso intensifica-se, e o sistema começa a mostrar o que estava escondido. É aqui que as pessoas dizem a frase clássica: “Ele liga, mas não arrefece como antes.”

Os defeitos ocultos mais comuns (mesmo com “boa” instalação)

Nem todos estes pontos são erro grosseiro. Alguns são “quase certo”, e o quase é onde o conforto morre devagar.

  • Carga de gás fora do ideal: pode ter pouco (arrefece pouco e consome mais) ou estar desajustado ao comprimento real das tubagens.
  • Vácuo incompleto: fica humidade/ ar no circuito, o que degrada o desempenho e pode acelerar desgaste interno.
  • Drenagem com pouca inclinação: a água não escoa, acumula, cheira mal, pinga, ou ativa proteções.
  • Isolamento das tubagens mal rematado: condensação, perdas térmicas e manchas na parede “do nada”.
  • Unidade exterior mal posicionada: apanha sol direto, recircula ar quente, ou está encostada demais e não “respira”.
  • Desnível discreto: suficiente para alterar o escoamento do condensado, sobretudo em modo frio com muita humidade.

Vamos ser honestos: quase ninguém valida isto tudo com calma no dia da instalação. Queremos é que ligue e faça frio.

“O ar condicionado não falha só quando avaria. Às vezes falha porque está a trabalhar contra a própria instalação.”

Sinais práticos: como o problema se mostra no dia-a-dia

O corpo percebe antes do manual. E a casa dá pistas, se as ouvirmos.

  • Ar frio no início, morno ao fim de 20–30 minutos: pode ser troca térmica pobre (exterior a sobreaquecer), filtro/serpentina sujos, ou carga de gás.
  • Cheiro a mofo quando liga: drenagem, bandeja, biofilme na unidade interior; não é “normal do frio”.
  • Pingos ocasionais: drenagem, isolamento, ou gelo a derreter por fluxo de ar reduzido.
  • Ruído de borbulhar/“água a correr”: pode indicar ar/humidade no circuito ou retorno de condensados.
  • Ciclos muito curtos (liga/desliga): sonda, dimensionamento, ou restrição de fluxo de ar; é conforto aos solavancos.

Se o desconforto é irregular, tende a ser um defeito oculto - porque falhas óbvias são constantes.

O que pode verificar sem ferramentas (e sem adivinhar)

Há coisas simples que não resolvem tudo, mas ajudam a separar “manutenção básica” de “precisa de assistência”.

  1. Filtros limpos e bem colocados (não é glamour, é fluxo de ar).
  2. Saída de ar desobstruída: cortinados e móveis podem estrangular a circulação.
  3. Modo e temperatura realistas: 16 ºC num dia húmido não é “mais rápido”; pode é criar gelo e instabilidade.
  4. Drenagem a trabalhar: em frio, deve pingar no exterior (ou escoar no tubo) em dias húmidos; “nunca pinga” pode ser pista.
  5. Exterior livre: sem grades coladas, sem caixas a abafar, sem sol direto sempre que possível.

Se estas verificações melhoram pouco ou nada, normalmente não é “sensação”: é sistema.

Quando chamar assistência - e o que pedir para não ficar no “está tudo bem”

Há uma diferença grande entre alguém “ver” e alguém “medir”. Peça medições e diagnóstico, não apenas opinião.

  • Pressões e temperaturas de trabalho (para avaliar carga de refrigerante e troca térmica).
  • Teste/validação de fugas (mesmo microfugas podem demorar semanas a mostrar sintomas).
  • Confirmação de vácuo e procedimento (se houve intervenção recente no circuito).
  • Verificação de inclinação e escoamento (unidade interior e percurso do dreno).
  • Condição das serpentinas (sujo por dentro pode ser invisível por fora).

Uma boa pergunta, simples e eficaz: “O que é que está a limitar a capacidade: fluxo de ar, circuito de gás, ou dissipação no exterior?” Obriga o raciocínio a ficar claro.

Pista O que costuma significar Próximo passo
Cheiro a humidade ao ligar Drenagem/biolodo/condensação Limpeza e revisão do escoamento
Arrefece pouco em dias muito quentes Exterior sem ventilação ou carga de gás Medições e reposicionamento/ajuste
Pingos dentro de casa Dreno, isolamento ou gelo Rever inclinações e fluxo de ar

FAQ:

  • Um ar condicionado novo pode ter defeitos ocultos? Pode. “Novo” não impede microfugas, vácuo incompleto, drenagem mal desenhada ou posicionamento exterior desfavorável.
  • Se ele faz frio, está tudo bem? Nem sempre. Pode fazer frio e ainda assim consumir mais, ciclar mal, criar humidade/cheiros e desgastar componentes mais cedo.
  • É normal cheirar a mofo nos primeiros minutos? Um ligeiro cheiro inicial pode acontecer após longos períodos parado, mas cheiro persistente aponta para humidade acumulada e precisa de limpeza/revisão.
  • O problema é sempre do instalador? Não obrigatoriamente. Pode ser manutenção, uso, dimensionamento ou condições do local. Mas a instalação é frequentemente onde o “quase” vira falha.
  • O que devo registar antes de chamar assistência? Hora/duração do problema, modo usado, temperatura definida, se há pingos/cheiros/ruídos, e se piora com calor ou humidade. Isso encurta o diagnóstico.

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