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O ar condicionado pode agravar alergias sem você perceber

Homem a limpar um ar condicionado numa sala com cama, plantas e cortinas cinzentas.

Há dias em que entra em casa e respira melhor - pelo menos é isso que parece. Liga o ar condicionado, fecha as janelas, e a divisão fica “limpa” e silenciosa. Só que, se os filtros de ar estiverem saturados ou mal mantidos, esse conforto pode transformar-se num agravamento de alergias sem se dar conta.

O mais traiçoeiro é que não acontece como um espirro cinematográfico. Acontece devagar: olhos mais secos ao fim da tarde, garganta arranhada à noite, nariz entupido quando acorda. E como o ar está fresco, o cérebro jura que o problema só pode ser pó “da rua” - não o aparelho que está a trabalhar ao seu lado.

O que está a circular quando o ar parece “mais puro”

O ar condicionado não cria ar novo. Ele recircula e trata o ar que já está na divisão, removendo calor e, em alguns casos, alguma humidade. Nesse processo, o aparelho também apanha aquilo que anda no ar: pó fino, fibras, pólen que entrou por uma fresta, pêlos de animais, fumo de cozinha, e até esporos de fungos quando há humidade suficiente.

Quando tudo está bem mantido, os filtros fazem o seu trabalho e o sistema não se torna protagonista. Quando não está, o fluxo de ar vira um megafone: o que antes assentava discretamente nas superfícies passa a ser soprado de volta, repetidamente, ao nível do seu nariz.

Há um padrão clássico: os sintomas melhoram fora de casa (ou no escritório) e pioram quando regressa ao quarto com a porta fechada e o ar condicionado ligado. Não é prova científica, mas é uma pista com valor prático.

O ponto cego: alergias que parecem “cansaço” ou “constipação”

Nem toda a gente reage com ataques óbvios de espirros. Em muitas pessoas, o agravamento vem com sinais pouco teatrais: sensação de cabeça pesada, tosse seca, pieira leve, pele mais irritada, dificuldade em adormecer. E como estes sintomas também combinam com stress, mudanças de tempo e noites mal dormidas, é fácil culpar tudo menos o aparelho.

Uma mãe descreveu-me isto de forma simples: “Achei que era do regresso às aulas, porque o miúdo vinha sempre congestionado. Mas era pior ao fim de semana, quando ficávamos mais tempo em casa.” O que mudou a história não foi um xarope novo. Foi abrir o painel, ver o filtro cinzento e perceber que “limpar por cima” não era manutenção.

O ar frio também pode mascarar o problema porque reduz a percepção de “cheiro a fechado”. Você sente frescura e associa a limpeza. Só que frescura é temperatura, não higiene do ar.

Como os filtros de ar passam de solução a fonte de irritação

Um filtro de ar sujo não é apenas “um filtro que filtra menos”. Ele pode tornar-se uma superfície onde se acumulam partículas e, se houver humidade, um local amigo de microrganismos. Depois, quando o ventilador trabalha, parte desse material volta a ser mobilizado.

Há ainda o efeito mecânico: filtros obstruídos reduzem o caudal e podem levar o sistema a trabalhar mais tempo para obter o mesmo conforto. Mais tempo ligado significa mais recirculação - e mais oportunidades para irritantes passarem pelo mesmo circuito.

Sinais comuns de que a coisa pode estar a correr mal:

  • Cheiro a mofo ao ligar, mesmo que desapareça depois de minutos
  • Pó a reaparecer rápido nas superfícies próximas das grelhas
  • Sintomas que pioram em divisões específicas (sobretudo quartos)
  • Necessidade crescente de baixar a temperatura para “sentir” alívio

Pequenas rotinas que baixam a carga alergénica sem drama

Não precisa de transformar a casa num laboratório. Precisa de reduzir a quantidade de coisas irritantes a circular e garantir que o sistema não está a ajudar o problema.

Uma rotina simples que costuma funcionar para muita gente:

  1. Verifique e limpe/substitua os filtros de ar de acordo com o manual (e com a realidade da sua casa: animais, obras, pó, fumo, tráfego).
  2. Limpe as grelhas e a zona à volta das entradas/saídas de ar, onde o pó se acumula e volta a ser levantado.
  3. Evite humidade “presa”: se a divisão fica com cheiro a mofo, vale a pena rever drenagens/condensados e ventilação.
  4. Ajuste hábitos que parecem irrelevantes: secar roupa dentro de casa, cozinhar sem exaustor, guardar sapatos no quarto - tudo isto alimenta partículas e humidade.

E há um detalhe que muda muito: não espere “pelo cheiro”. Quando há cheiro, muitas vezes já há tempo acumulado. Trate como escovar os dentes: menos intensidade, mais consistência.

Erros comuns que deixam o problema a crescer em silêncio

É fácil cair em soluções que aliviam por cinco minutos e depois pioram o cenário. Perfumar a divisão, por exemplo, pode dar sensação de “ar melhor”, mas não reduz partículas nem resolve o filtro saturado. E mexer na temperatura para baixo pode secar ainda mais as mucosas, o que intensifica a sensação de irritação.

Outros erros típicos:

  • Adiar a manutenção porque “ainda arrefece bem”
  • Aspirar sem boa filtragem e levantar pó (especialmente em tapetes)
  • Ignorar o quarto: é onde passa mais horas a respirar o mesmo ar
  • Limpar o filtro “à pressa” e voltar a montar ainda húmido

Se tem asma, rinite alérgica ou alergia a ácaros, estes detalhes têm mais peso do que parecem. Não por medo - por matemática: mais exposição ao longo do tempo, mais sintomas.

O que fica quando resolve o invisível

Quando o ar condicionado está em boas condições, ele pode ser um aliado, especialmente em dias de pólen alto ou calor extremo que obriga a janelas fechadas. A sensação que procura não é “mais frio”. É respirar e esquecer que está a respirar.

E é isso que a manutenção devolve: menos ruído no corpo. Menos garganta a reclamar, menos olhos a arder, menos “constipações” que aparecem sempre no mesmo sítio. O alívio pode ser tão discreto quanto o problema - mas, de repente, torna-se óbvio.

Ponto-chave O que observar O que fazer
Recirculação amplifica irritantes Sintomas pioram com o aparelho ligado Rever hábitos e tempo de funcionamento
Filtros saturados deixam de proteger Pó/cheiro a mofo/irritação Limpar ou substituir filtros de ar
Humidade cria o cenário perfeito Mofo, tosse seca, pior à noite Ver drenagem, ventilação e manutenção

FAQ:

  • O ar condicionado causa alergias? Não “cria” alergias do nada, mas pode agravar sintomas ao recircular e redistribuir partículas, especialmente se a manutenção estiver em atraso.
  • Com que frequência devo trocar ou limpar os filtros de ar? Depende do modelo e do uso. Siga o manual, mas ajuste à sua realidade (animais, pó, obras, fumo). Se notar sintomas ou pó excessivo, antecipe.
  • Um cheiro a mofo ao ligar é sempre sinal de problema? É um sinal importante. Pode indicar humidade e sujidade no sistema (filtros, drenos, componentes internos). Se persistir, vale a pena assistência técnica.
  • Baixar mais a temperatura ajuda a aliviar sintomas? Às vezes dá sensação de alívio, mas pode secar mucosas e piorar irritação. Melhor é melhorar a qualidade do ar (filtros, limpeza, humidade).
  • Um purificador de ar substitui a manutenção do aparelho? Ajuda a reduzir partículas na divisão, mas não substitui filtros limpos e um sistema sem humidade acumulada. Idealmente, complementa.

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