Tive a conversa numa sala de máquinas com ar a metal quente e aquele zumbido baixo que parece estar sempre “ligado”. Falávamos de custos, claro, mas a urgência vinha de outro sítio: sistemas avac a falhar nunca são só uma avaria - são conforto perdido, produção parada, gente a reclamar e energia a fugir por todas as juntas. É aqui que uma estratégia de longevidade deixa de ser teoria e passa a ser a diferença entre manutenção previsível e surpresas às 3 da manhã.
O que mais me surpreende, ao longo dos anos, é a simplicidade do padrão. A maior parte dos sistemas não “morre” de velhice; desgasta-se por pequenas coisas repetidas: filtros esquecidos, serpentinas sujas, vibrações ignoradas, setpoints sem lógica, arranques e paragens a mais. A vida do equipamento encurta em silêncio, e depois faz barulho.
Onde a vida do sistema se perde (quase sempre sem ninguém notar)
Começa com a sujidade. Um filtro carregado obriga ventiladores a trabalhar fora da zona eficiente, aumenta a queda de pressão e empurra motores e correias para um esforço contínuo. A seguir vem o gelo invisível: serpentinas com pó e gordura trocam menos calor, e o sistema compensa com mais tempo de compressor, mais amperagem e mais temperatura nos enrolamentos.
Depois há o inimigo discreto: a água mal tratada. Circuitos hidráulicos com incrustação ou corrosão perdem desempenho e ganham risco - de fugas, de entupimentos, de bombas a cavitar. E, por fim, a parte humana: mudanças de ocupação, ampliações, “só mais um escritório aqui”, e os setpoints ficam a contar uma história antiga que já ninguém atualizou.
O resultado é sempre parecido. O equipamento passa a viver em esforço, e o esforço cobra juros.
A regra que estica anos: reduzir stress, não “puxar” potência
Se tivesse de resumir em uma frase, era esta: longevidade é tirar o sistema do limite. Não é pedir mais; é pedir melhor, com margem. Menos ciclos curtos, menos arranques, menos temperaturas extremas, menos vibração, menos humidade fora de controlo.
Uma boa estratégia de longevidade parece aborrecida quando está a resultar. É isso que se quer: dias iguais, sem drama, com consumo previsível e peças que chegam ao fim da vida útil “no calendário”, não “na urgência”.
“O melhor elogio a uma instalação é ninguém falar dela - porque está a funcionar.”
As melhores estratégias (práticas) para prolongar a vida dos sistemas AVAC
1) Tornar a manutenção pequena e frequente (em vez de rara e heroica)
O plano mais barato é o que evita o colapso. Trocar filtros a tempo, limpar serpentinas e verificar tensões e alinhamentos é menos “glamour” do que trocar um compressor - e muito mais eficaz. O truque é transformar tarefas grandes em micro-rotinas com datas curtas e responsabilidade clara.
- Filtros: adequar classe e periodicidade ao uso real (obra, cozinha, pó, tráfego).
- Serpentinas e bandejas de condensados: limpeza e desobstrução para evitar perda de troca térmica e fungos.
- Ventiladores/correias/polias: tensão, alinhamento e desgaste (ruído e vibração são sinais, não “características”).
- Aperto elétrico e inspeção visual: conexões quentes envelhecem tudo à volta.
2) Controlar ciclos curtos e arranques (o desgaste que parece “normal”)
Arrancar custa. Parar e arrancar muitas vezes custa ainda mais. Ciclos curtos aumentam desgaste mecânico, elevam picos de corrente e fazem o sistema falhar no controlo fino (temperatura e humidade oscilam, o conforto degrada-se, a energia dispara).
O que costuma resolver, sem magia:
- Rever histerese e temporizações no controlo (anti-short-cycle).
- Ajustar capacidade por estágios, inverter (VFD) ou modular onde faz sentido.
- Dimensionamento e balanceamento: demasiada “máquina” para pouca carga cria liga/desliga eterno.
- Verificar sensores: uma sonda mal colocada manda o sistema correr atrás de fantasmas.
3) Tratar a água como se fosse parte do equipamento (porque é)
Em chillers, caldeiras, torres e circuitos, a qualidade da água decide a saúde do sistema. Incrustação reduz transferência térmica; corrosão cria fugas; biofilme é perda de desempenho e risco higiénico.
Boas práticas que pagam a longo prazo:
- Programa de tratamento com análises regulares (não “quando dá jeito”).
- Controlo de purgas e reposição na torre para manter condutividade dentro do alvo.
- Limpezas programadas e inspeção de permutadores.
- Atenção à cavitação: ruído, vibração e desempenho errático nas bombas.
4) Afinar setpoints e horários como se a energia fosse uma fuga de ar
Muitos sistemas envelhecem porque trabalham quando não é preciso - ou contra si próprios. Arrefecer e aquecer em simultâneo, ventilação excessiva, setpoints agressivos “para garantir”, horários desatualizados. Tudo isto adiciona horas de funcionamento e calor interno nos componentes.
Uma revisão simples costuma trazer ganhos rápidos:
- Horários por ocupação real (e não por hábito).
- Setpoints coerentes entre zonas e equipamentos.
- Reset de temperatura de água gelada/quente e de pressão estática quando aplicável.
- Verificar economizadores e free-cooling: quando funcionam, poupam horas de compressor.
5) Medir o suficiente para apanhar problemas cedo (sem virar refém do dashboard)
Não é “ter um BMS”; é usá-lo para caçar desvios. Tendências de consumo, alarmística bem afinada e comparações semana a semana encontram anomalias antes de virarem avaria.
Indicadores simples e úteis:
- Horas de funcionamento por equipamento (e por estágio).
- Temperaturas de ida/retorno e ΔT (quando o ΔT cai, algo está a fugir).
- Pressões/queda de pressão em filtros e serpentinas.
- Vibração e temperatura de rolamentos (quando possível).
O plano que cabe numa semana (e muda o ano)
Se o sistema já está a funcionar “mais ou menos”, o caminho não é reinventar tudo. É criar três âncoras fáceis que impedem a degradação de voltar a acumular.
- Uma ronda mensal curta (filtros, drenagens, ruídos, vibração, inspeção elétrica visual).
- Uma limpeza trimestral com impacto (serpentinas, ventiladores, torres/condensação conforme o tipo de instalação).
- Uma revisão semestral de controlo (setpoints, horários, sensores, alarmes e tendências).
No fim, o que se ganha não é só “mais anos”. Ganha-se previsibilidade, menos picos de energia, menos chamadas fora de horas e um conforto que deixa de ser notícia.
| Ponto-chave | O que fazer | Benefício |
|---|---|---|
| Menos stress operacional | Reduzir ciclos curtos e extremos | Menos desgaste e avarias |
| Higiene térmica | Filtros/serpentinas/drenagens em dia | Melhor eficiência e qualidade do ar |
| Controlo e água | Setpoints + tratamento de água | Mais estabilidade e vida útil |
FAQ:
- Qual é a intervenção com melhor retorno para prolongar a vida do sistema? Troca de filtros no timing certo e limpeza de serpentinas. Parece básico, mas reduz esforço e horas de compressor/ventiladores.
- Como sei se o meu sistema está a fazer ciclos curtos? Temperatura a oscilar, muitos arranques por hora, consumo irregular e desgaste prematuro de contactores/compressores. As tendências no BMS confirmam rapidamente.
- Vale a pena investir em variadores de velocidade (VFD)? Muitas vezes sim, sobretudo em ventiladores e bombas com carga variável. Reduz arranques, baixa stress e melhora controlo - mas deve ser bem dimensionado e parametrizado.
- O que mais encurta a vida de chillers e caldeiras? Água mal tratada, incrustação/corrosão, e operação fora do regime (temperaturas e caudais errados). A manutenção “mecânica” sem olhar para a água fica incompleta.
- Com que frequência devo rever setpoints e horários? Pelo menos a cada seis meses e sempre que haja mudanças de ocupação, layout ou horário do edifício. Sistemas envelhecem depressa quando continuam a obedecer a um edifício que já não existe.
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário