O que vai separar bons edifícios de edifícios caros em 2026 não é uma marca nova, mas a forma como se tomam decisões sobre conforto e energia. Se gere instalações, sabe que sistemas avac vivem no cruzamento entre pessoas, contas de electricidade e manutenção - e é aí que o planeamento estratégico deixa de ser um “documento” e passa a ser um travão à entropia. A relevância é simples: quando decide bem hoje, compra menos urgências amanhã.
Vi isto num edifício de escritórios numa manhã fria, com o BMS a apitar e o técnico a alternar entre “isto é do sensor” e “isto é do caudal”. A queixa do utilizador era banal (“está gelado”), mas a causa era típica: horários desalinhados, setpoints herdados de outro inquilino, e um contrato de manutenção que só reage quando já há fumo. Não faltava tecnologia. Faltava um roteiro.
O que muda mesmo em 2026 (e porque as decisões do AVAC ficam mais duras)
Há uma sensação crescente de que os edifícios ficaram “mais sensíveis”: mais dados, mais exigência de conforto, mais escrutínio energético. Ao mesmo tempo, as equipas de operação estão mais curtas e o risco de decisão apressada cresce - trocar equipamento quando o problema era controlo, ou mexer no controlo quando a falha é hidráulica. O custo não aparece no orçamento do mês; aparece na soma de pequenas perdas.
O padrão que se repete é este: urgência a ditar compras, e compras a criar mais complexidade. Em 2026, as melhores decisões estratégicas não vão ser as mais brilhantes; vão ser as que reduzem pontos de falha e aumentam previsibilidade sem sacrificar conforto.
“Não é preciso um AVAC perfeito. É preciso um AVAC legível: que explique o que está a fazer e porquê.”
As melhores decisões estratégicas (por ordem de impacto e fricção)
Em vez de tratar o sistema como um projecto único (“vamos substituir tudo”), trate-o como um conjunto de decisões em camadas. O objectivo é tirar ruído, estabilizar desempenho e só depois investir onde faz diferença.
1) Comece por definir o que é “bom” (antes de comprar seja o que for)
Se não existe uma definição operacional de sucesso, o edifício vai optimizar para o que grita mais alto: reclamações ou picos de consumo. Em 2026, “bom” deve ser mensurável e partilhado entre operação, gestão e utilizadores.
- Faixas de conforto (temperatura e humidade) por zona e por horário real.
- Metas de energia (kWh/m²) com sazonalidade assumida, não “média anual” vaga.
- Critérios de qualidade do ar (CO₂/ventilação) ligados a ocupação, não a suposições.
A decisão estratégica aqui é de linguagem: o edifício precisa de um contrato consigo próprio.
2) Aposte em comissionamento contínuo, não em “afinações” episódicas
Muitos sistemas falham lentamente: válvulas que não fecham, sensores a derivar, horários que se multiplicam. A melhor compra pode ser um processo: regras simples de detecção e correcção, com responsáveis e prazos.
Três alavancas que costumam pagar rápido:
- Calendários e setpoints limpos (menos exceções, mais consistência).
- Verificação de sensores (calibração e plausibilidade: “faz sentido com o exterior?”).
- Sequências de controlo auditadas (economizador, free-cooling, anti-ciclo, rampas).
Isto reduz o “efeito iô-iô”: aquecer e arrefecer a mesma zona em horas próximas, sem ninguém admitir.
3) Decida cedo o seu caminho de eletrificação - e faça-o por fases
Não é só uma questão ambiental; é risco operacional e financeiro. Em muitos portfólios, 2026 é o ano em que se escolhe um trajecto: manter gás como base, hibridizar, ou avançar para bombas de calor com gestão inteligente.
Uma decisão estratégica madura faz três perguntas:
- Qual é a capacidade eléctrica disponível e quanto custa aumentá-la?
- Onde é que a bomba de calor trabalha “feliz” (temperaturas de ida/retornos, emissores existentes)?
- Que redundância mantém o serviço quando a meteorologia e a rede estão no pior dia do ano?
O erro comum é “eletrificar” como slogan. O acerto é eletrificar como plano de risco.
4) Simplifique a arquitetura (menos variação, mais peças repetidas)
A complexidade é sedutora quando está em slides. Em operação, é um inventário infinito de excepções. Uma das decisões mais inteligentes para 2026 é escolher deliberadamente menos tipos de equipamentos, menos modelos de controladores e menos lógicas paralelas.
- Padronize válvulas, actuadores e sensores onde for possível.
- Reduza “zonas especiais” que exigem sequências únicas.
- Documente como se fosse para alguém novo que chega amanhã (porque vai chegar).
O ganho não é só manutenção; é tempo mental. E tempo mental é fiabilidade.
5) Leve o ar a sério: ventilação por procura e filtragem com intenção
A qualidade do ar deixou de ser “nice-to-have”. Em 2026, a decisão estratégica não é apenas aumentar caudais; é fazê-lo com controlo e energia.
- CO₂ como sinal de ocupação (com limites e alarmes úteis, não histéricos).
- Recuperação de calor/energia onde o perfil de uso justifica.
- Filtragem dimensionada ao ventilador real (senão compra-se filtro e perde-se caudal).
Uma boa regra: o ar deve ser previsível. Se a ocupação muda, o sistema tem de mudar com ela - sem drama.
O “como” do planeamento: um ciclo curto que evita decisões caras
O planeamento estratégico para AVAC costuma falhar por ser grande demais e lento demais. Em 2026, o que funciona é um ciclo trimestral curto: observar, decidir, executar, aprender.
- 30 dias: linha de base (energia, conforto, alarmes, queixas).
- 60 dias: 3 intervenções pequenas (horários, setpoints, sensores) + medição do efeito.
- 90 dias: 1 decisão de CAPEX (a que ficou inevitável) com números já limpos do ruído.
É aqui que se ganha: primeiro reduz o desperdício invisível, depois investe com confiança.
| Decisão estratégica | O que muda | Benefício directo |
|---|---|---|
| Comissionamento contínuo | Menos deriva e mais consistência | Menos queixas e picos |
| Padronização e simplificação | Menos peças e lógicas únicas | Manutenção mais rápida |
| Eletrificação faseada | Menos risco em transição | Custos mais previsíveis |
FAQ:
- Qual é o primeiro passo se o edifício “funciona”, mas consome demasiado? Faça uma linha de base e limpe horários/setpoints antes de trocar equipamentos; muitas vezes o desperdício está no controlo e na operação.
- Vale a pena investir em BMS/analítica se já tenho sensores? Sim, se a decisão for “transformar dados em acções”: poucos indicadores, alarmes com responsabilidade e revisão regular. Caso contrário, só acumula ruído.
- Como priorizar entre conforto e energia sem guerras internas? Defina faixas de conforto e metas energéticas por período (ocupado/não ocupado) e aceite sazonalidade; o conflito baixa quando as regras são explícitas.
- Bombas de calor são sempre a melhor escolha em 2026? Não “sempre”. Dependem da instalação eléctrica, temperaturas de água necessárias, emissores e estratégia de redundância. A melhor decisão é um plano por fases com testes no local.
- O que é um sinal claro de que preciso de CAPEX e não de afinação? Quando, após corrigir sequências, sensores e hidráulica básica, ainda há incapacidade física (potência, caudal, ruído, falhas recorrentes) para cumprir o serviço definido.
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