A instalação de ar condicionado parece um trabalho “feito e esquecido” - até ao dia em que, meses depois, a casa já não arrefece como antes e a unidade começa a pingar. Grande parte destas avarias não nasce do equipamento, mas de erros de instalação que passam despercebidos no primeiro verão e só aparecem quando a humidade, o pó e os ciclos de uso fazem o resto. É por isso que vale a pena saber qual é o erro mais comum e como se manifesta.
A cena repete-se: a máquina liga, faz frio, o instalador vai-se embora, e durante semanas tudo parece normal. Depois vem um cheiro a mofo, um “tic-tic” do plástico a vibrar, a conta da luz sobe sem explicação, e aparece uma mancha de água na parede. É frustrante porque soa a “azar”, quando muitas vezes é só física básica e uma pequena decisão tomada no dia da montagem.
O erro que fica escondido: drenagem mal pensada (ou mal inclinada)
O erro mais traiçoeiro é a drenagem de condensados mal executada - tubo com pouca inclinação, com “barrigas” (pontos baixos onde a água fica), demasiado comprido sem queda suficiente, ou ligado a um ponto de escoamento sem sifão/ventilação adequada. No primeiro mês, a água ainda consegue “escapar” entre ciclos. Com o tempo, acumula-se sujidade, forma-se biofilme e o escoamento passa de lento a irregular.
O resultado raramente é imediato. A unidade até pode funcionar bem em modo frio, mas vai ficando mais sensível: em dias húmidos pinga, em dias normais faz ruído de água, e quando a drenagem falha de vez a água procura o caminho mais fácil - o interior, o rodapé, o estuque.
Sinais típicos que só aparecem “lá para a frente”
- Pingos intermitentes (não constantes) na unidade interior
- Cheiro a húmido/mofo quando liga, sobretudo depois de estar desligado
- Ruído de água a “borbulhar” ou a voltar para trás
- Ventilação mais fraca e filtro a sujar depressa
- Mancha amarelada na parede ou teto perto da unidade
Porque é que isto dá problemas meses depois
Os condensados não são só “água limpa”. Passam por poeiras do ambiente, micro-partículas do filtro e matéria orgânica que se deposita no tabuleiro. Se o tubo não escoa livremente, essa mistura cria uma camada viscosa que estreita o diâmetro útil e prende mais sujidade - um ciclo perfeito para entupimentos lentos.
Há ainda um detalhe que engana: em dias secos e com uso leve, o sistema produz menos condensação, então o defeito fica mascarado. Quando chega um período de maior humidade (ou noites seguidas a arrefecer), a drenagem já não acompanha e a falha aparece “do nada”.
O que um bom instalador faz diferente (e o que deve perguntar)
Não precisa de decorar normas; precisa de conseguir fazer duas ou três perguntas certeiras antes de aceitar “está pronto”.
Checklist rápido no fim da instalação
- O tubo de dreno tem queda contínua, sem subir e descer pelo caminho?
- Existe algum ponto onde o tubo “faz barriga” atrás da unidade ou dentro de uma caleira?
- Foi testado com água (não só “assoprado”) para confirmar escoamento?
- O escoamento termina num local adequado (e não a pingar para a fachada/varanda do vizinho)?
- Em instalações com bomba de condensados: foi prevista manutenção e acesso fácil?
Uma drenagem bem feita é quase aborrecida: não faz barulho, não cheira, não obriga a improvisos com baldes.
Um mini “simulador” de consequências (na vida real)
Imagine uma unidade numa sala, com o tubo a passar por trás do móvel e a fazer uma pequena subida para contornar um canto. No dia da obra, ninguém nota porque a água ainda escoa. Três meses depois, o pó do verão + humidade cria lodo no ponto mais baixo. A água começa a ficar parada, ganha cheiro, e num dia mais húmido transborda para o tabuleiro.
O problema chega ao utilizador como três coisas separadas: cheiro, pingos, e desempenho pior. E é aqui que muita gente troca filtros, compra sprays, reinicia a máquina - quando a raiz está num tubo fora de prumo.
Como prevenir sem “complicar” a obra
A prevenção aqui não é cara; é planeamento e execução limpa.
- Percurso curto e simples: menos curvas, menos metros, menos hipótese de “barriga”.
- Queda constante: sempre a descer, mesmo que isso obrigue a repensar por onde o tubo passa.
- Teste final com água: de preferência com volume suficiente para validar fluxo contínuo.
- Acesso para manutenção: esconder tudo é bonito, mas o tubo tem de ser alcançável se um dia entupir.
- Manutenção mínima anual: limpeza de filtros e, quando aplicável, inspeção do tabuleiro/dreno.
Outros erros de instalação que também costumam “aparecer tarde”
A drenagem é campeã, mas não está sozinha. Estes também costumam falhar com atraso:
- Tubagem frigorígena mal isolada: cria condensação fora do sítio e “sua” dentro de sancas e paredes.
- Unidade interior sem nível: basta poucos milímetros para a água não ir para o dreno como devia.
- Flare mal apertado (ligações): microfugas que reduzem rendimento e puxam por compressor durante meses.
- Vácuo mal feito: humidade no circuito, degradação do óleo e problemas que só aparecem após muitos ciclos.
Quando já está a acontecer: o que fazer sem agravar
Se há pingos ou cheiro persistente, evite “remendos” que só escondem o problema (selantes, fitas, inclinar a unidade à força). Desligue a máquina, confirme se o dreno está a escoar livremente e chame assistência para verificar tabuleiro, tubo e nivelamento.
Se o técnico sugerir “é normal pingar no verão”, peça para ver o teste de drenagem e a inclinação do tubo. Normal é a condensação existir; normal não é ficar dentro de casa.
FAQ:
- O ar condicionado pingar é sempre sinal de avaria? Não. Condensação é normal, mas deve sair pelo dreno para o exterior/esgoto. Pingos dentro de casa indicam quase sempre falha de drenagem, falta de nível ou gelo na bateria.
- Posso desentupir o dreno sozinho? Às vezes, sim, com cuidado e acesso fácil. Mas aspirar/pressionar sem critério pode soltar sujidade para dentro da unidade ou danificar ligações. Se o problema é recorrente, vale a pena rever o percurso e a inclinação do tubo.
- Porque é que o cheiro aparece quando ligo a máquina? Muitas vezes é biofilme no tabuleiro/bateria e água parada por drenagem lenta. A limpeza ajuda, mas se a água continua a acumular, o cheiro volta.
- Uma bomba de condensados resolve? Resolve quando não há gravidade suficiente, mas adiciona manutenção e um ponto extra de falha. O ideal é gravidade sempre que possível, com acesso para limpeza.
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário