Entrei numa central técnica num dia de chuva miúda e encontrei o mesmo cenário de sempre: alarmes silenciados, um ventilador a “cantar” mais alto do que devia, e uma sensação difusa de que o edifício estava a gastar energia para não oferecer conforto. Nos sistemas avac, muitos dos erros fundamentais não acontecem por falta de tecnologia, mas por uma falha mais básica: gerir o sistema como se fosse um interruptor, não um organismo. Isto interessa-lhe porque é aí que a fatura cresce, o conforto oscila e a manutenção vira incêndio permanente.
O detalhe que denuncia o problema é quase invisível. Não é uma peça partida, é uma lógica partida: ligar/desligar, setpoints a toda a hora, “dá mais frio” quando há queixas, “dá mais calor” quando alguém se queixa do contrário. O sistema obedece, mas nunca estabiliza.
O erro que parece prático (e estraga tudo)
Chama-se, de forma simples, controlo reativo. É quando o edifício manda e o AVAC só corre atrás: alguém reclama, ajusta-se um setpoint; o consumo dispara, baixa-se a ventilação; aparece condensação, aumenta-se a temperatura; e assim se passa o dia a compensar a compensação.
Num escritório, isto traduz-se em picos de desconforto: manhã fria, tarde abafada, e aquela “corrente de ar” que ninguém sabe explicar. Numa loja, é a porta a abrir mil vezes a desfazer qualquer tentativa de estabilidade. Numa indústria, é pior: variações de temperatura e humidade que mexem com processo e qualidade.
O erro é sedutor porque dá uma sensação imediata de controlo. Só que está a trocar estabilidade por resposta rápida - e sistemas avac pagam essa troca com desgaste, ruído, consumo e queixas.
Quando a energia “some” sem ninguém notar
Há um momento típico. O chiller liga, desliga, liga outra vez; as unidades terminais alternam entre aquecer e arrefecer; e a sala técnica parece ocupada, “a trabalhar”. Mas o que está a acontecer é uma guerra interna: um lado remove carga, o outro repõe, e a conta chega como se estivesse a fazer algo útil.
Alguns sinais comuns de que o edifício entrou neste ciclo:
- Setpoints mudados várias vezes por dia (ou “bloqueados” porque já ninguém aguenta mexer).
- Ventilação reduzida para “poupar”, seguida de ar pesado e CO₂ alto.
- Reaquecimento ativo em zonas que deveriam estar só a arrefecer.
- Horários de funcionamento que não batem certo com ocupação real.
- Equipamentos a arrancar muitas vezes (curtos ciclos) e filtros sempre “a precisar”.
Isto não é azar. É o sistema a ser gerido por sintomas em vez de causas.
O que muda quando se passa de “queixas” para “regras”
A solução não começa por comprar nada. Começa por definir o que é “bom” e deixar o controlo fazer o seu trabalho sem ser sabotado. Tal como uma equipa, um AVAC precisa de regras claras, não de ordens contraditórias a cada hora.
Três âncoras simples costumam resolver 80% do caos:
- Setpoints estáveis e com banda morta (deadband) real: separar aquecimento e arrefecimento para evitar luta interna.
- Horários alinhados com ocupação: pré-arranque curto e intencional, e paragem que não prolonga “por via das dúvidas”.
- Ventilação por necessidade, não por medo: controlo por CO₂/ocupação quando faz sentido, mantendo mínimos de qualidade do ar.
Depois, há a parte que parece aborrecida mas é ouro: parametrizar rampas, limites, histerese, e confirmar sensores. Um sensor de temperatura mal colocado pode mandar mais que o melhor software do mundo.
“Não é falta de potência. É falta de estabilidade.”
Como implementar sem parar o edifício (nem criar uma guerra)
O erro reativo raramente é de uma pessoa; é de um hábito coletivo. Por isso, o ajuste tem de ser pequeno, verificável e repetível. Em vez de “otimizar tudo”, escolha uma zona e faça um ciclo de melhoria curto.
- Pegue numa área com queixas recorrentes (uma ala, um open space, uma loja).
- Congele setpoints por uma semana e registe conforto/energia (sem microajustes).
- Verifique sensores: localização, calibração, leituras discrepantes.
- Ajuste deadband e horários antes de mexer em caudais e potências.
- Só depois afine ventilação e estratégias (economizador, free-cooling, etc.).
O objetivo é simples: fazer o sistema parar de “correr” e começar a “manter”. Quando isso acontece, o conforto deixa de ser um pico ocasional e passa a ser o normal.
| Sinal | O que costuma significar | Primeiro passo |
|---|---|---|
| Ciclos curtos (liga/desliga) | Controlo demasiado agressivo ou sensor errado | Ajustar histerese e validar sensor |
| Aquecer e arrefecer no mesmo período | Deadband inexistente / lógica em conflito | Separar setpoints e rever sequência |
| CO₂ alto após “poupança” | Ventilação cortada sem critério | Definir mínimos e/ou controlo por procura |
O que isto lhe deixa, na prática
Quando se elimina o controlo reativo, o edifício fica menos “nervoso”. A manutenção deixa de ser uma sequência de urgências, os ocupantes param de disputar o termóstato como se fosse política, e a energia passa a ser usada para conforto - não para corrigir decisões de cinco em cinco minutos.
Não é glamour. É um sistema finalmente coerente.
FAQ:
- Os sistemas avac ineficientes são sempre culpa do equipamento antigo? Não. Equipamento antigo pode pesar, mas a causa mais frequente é sequência de controlo mal definida, sensores duvidosos e setpoints instáveis.
- Vale a pena mexer em deadband e horários antes de investir em automação? Sim. Muitas poupanças e grande parte do conforto vêm de parametrização e regras básicas bem feitas.
- Reduzir ventilação é uma boa forma de poupar? Só com critério. Cortes cegos degradam qualidade do ar e depois obrigam a correções mais caras (e queixas).
- Como sei se há reaquecimento desnecessário? Procure zonas a pedir arrefecimento com bateria de reaquecimento ativa, ou simultaneidade de aquecimento/arrefecimento na mesma unidade.
- Qual é o primeiro indicador a acompanhar? Tendências: temperatura, setpoint, estado de aquecimento/arrefecimento, CO₂ (se existir) e frequência de arranques. Se não consegue ver isto, está a gerir às cegas.
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