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Este detalhe técnico separa sistemas bons de excelentes

Técnico a ajustar sistema de ar condicionado com tablet e ferramentas, num ambiente industrial.

Entrei numa sala técnica onde os sistemas avac acabavam de “passar” a receção da obra, e ainda assim a sensação era de desconforto. Os caudais estavam certos, as temperaturas também, e no entanto a otimização de desempenho parecia sempre uma promessa para “quando afinarmos isto com tempo”. O problema não era falta de equipamento; era um detalhe pequeno, quase invisível, que decide se o sistema se comporta como uma máquina ou como uma coleção de peças.

Acontece em escritórios, hotéis, hospitais e fábricas: durante semanas tudo parece aceitável, até chegar o primeiro pico de ocupação, a primeira vaga de calor, a primeira noite em que o edifício devia estar a dormir. É aí que se vê a diferença entre “bom” e “excelente”.

O minuto em que o conforto falha

Se perguntar a um operador o que o cansa, raramente vai dizer “falta de potência”. Vai falar de queixas que aparecem e desaparecem, de zonas que oscilam, de UTAs que sobem e descem como elevadores nervosos. E vai confessar, com um meio sorriso, que muita coisa se resolve “à mão” porque o automático não inspira confiança.

O detalhe técnico que mais vezes separa sistemas bons de excelentes é este: o comissionamento e a afinação das malhas de controlo (PID), com sensores bem posicionados e calibrados. Não é sexy. Não dá para fotografar para uma brochura. Mas é o que transforma energia em conforto de forma estável.

Quando a malha está mal afinada, o sistema não erra só a temperatura. Erra o ritmo. E um sistema sem ritmo consome mais, desgasta mais, e dá menos paz.

O que uma malha mal afinada faz ao seu edifício (sem pedir licença)

O cenário é familiar. Um sensor apanha um “sopro” de ar frio porque está mal colocado, o controlador reage em excesso, a válvula abre demais, a bateria aquece, o ventilador compensa, a zona passa do frio para o quente e alguém abre uma janela. A partir daí, já não é engenharia: é dança descoordenada.

Três sinais típicos de que o seu avac está a viver neste ciclo:

  • Oscilações de temperatura de 1–2 ºC (ou mais) ao longo da mesma hora, sobretudo em meia-carga.
  • Válvulas e variadores a “caçar” (abre/fecha, sobe/desce) em vez de estabilizarem num ponto.
  • Queixas concentradas em horários de transição: arranque da manhã, fim do dia, mudanças de ocupação.

Isto não é “normal do edifício”. É controlo a reagir a ruído como se fosse realidade.

“O equipamento estava bem dimensionado. O que estava mal dimensionado era a paciência do sistema para pequenas variações.”

O detalhe dentro do detalhe: sensores, tempo e intenção

Afinação de PID sem olhar para sensores é como ajustar um rádio com a antena partida. A excelência começa antes do software: onde se mede, o que se mede, e com que atraso.

Em sistemas avac, o atraso é o inimigo silencioso. A temperatura numa conduta muda num instante; a temperatura numa sala muda devagar; a sensação térmica das pessoas muda ainda mais devagar. Se a malha não respeita este “tempo de edifício”, vai tentar corrigir o futuro com pressa - e falha.

Uma checklist curta que costuma desbloquear 80% do problema:

  • Confirmar calibração e deriva de sensores (temperatura, CO₂, pressão) com referência adequada.
  • Rever posicionamento: evitar cantos mortos, influência direta de insuflação/retorno, radiação solar, portas e equipamentos quentes.
  • Validar unidades e escalas no BMS (há erros ridículos que passam meses despercebidos).
  • Definir tempos mínimos de atuação (anti-cycling), rampas e limites coerentes com o sistema físico.
  • Afinar PID em carga parcial, não só em condições “perfeitas” de ensaio.

A diferença entre bom e excelente não é ter PID. É ter PID a trabalhar com o mundo real.

Como a otimização de desempenho aparece na fatura (e na vida do operador)

Quando as malhas estabilizam, o consumo cai por razões aborrecidas mas poderosas: menos arranques, menos correções em excesso, menos simultaneidade de aquecimento e arrefecimento, menos ventilação “por medo”. O edifício deixa de gastar energia a desfazer o que acabou de fazer.

E há um efeito humano que quase nunca entra nos relatórios. O operador deixa de “apagar fogos” e começa a gerir. As reclamações reduzem, os alarmes tornam-se informativos em vez de constantes, e a manutenção deixa de ser uma corrida atrás do prejuízo.

Não é magia. É um sistema que para de discutir consigo próprio.

O pequeno método que evita a afinação eterna

A armadilha comum é tentar afinar tudo de uma vez e acabar a criar um sistema frágil, dependente do técnico que “sabe o truque”. O caminho mais limpo é iterar por camadas, com registo.

Três âncoras simples, no terreno, funcionam melhor do que reuniões longas:

  1. Escolher uma zona problemática (uma sala, um piso, uma UTA) e tornar essa zona o laboratório.
  2. Registar tendências (15-min ou 5-min) de variáveis-chave durante uma semana: setpoints, variáveis medidas, posições de válvula, VSD, caudais, temperaturas de ida/ret.
  3. Mudar uma coisa de cada vez: sensor/posição, ganho P, tempo I, filtros, limites, e comparar antes/depois.

Se tiver de “mexer em tudo” para funcionar, não está afinado - está segurado por fita-cola digital.

Sinal no dia a dia Causa provável Efeito típico
Oscilação e queixas intermitentes PID agressivo + atraso + sensor mal posicionado Conforto instável, janelas abertas
Válvulas/VSD sempre a mexer Falta de banda morta, filtros ou limites Desgaste, ruído, picos de consumo
Boa performance só em pico Afinação feita em condições de teste Ineficiência em meia-carga

FAQ:

  • A afinação de PID é “só software”? Não. Depende tanto de sensores (qualidade e localização) e hidráulica/aeráulica (válvulas, equilibragem, caudais) como do controlador.
  • Porque é que o sistema piora em meia-carga? Porque em carga parcial os atrasos e as não linearidades (válvulas, ventiladores, mistura de ar) ficam mais evidentes; uma malha mal afinada começa a “caçar”.
  • Isto aplica-se a VRF e chillers/UTAs? Sim. A lógica muda, mas o princípio é o mesmo: medir bem, respeitar o tempo do sistema e evitar controlo reativo ao ruído.
  • Quanto tempo demora ver ganhos de otimização de desempenho? Muitas vezes dias a semanas, assim que a estabilidade melhora e os horários/estratégias deixam de compensar oscilações com energia extra.
  • O que pedir a um integrador/BMS para garantir excelência? Tendências exportáveis, documentação de setpoints/limites, critérios de aceitação (estabilidade), e um plano de comissionamento contínuo após ocupação real.

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