Entrei numa sala técnica num fim de tarde e o ar estava “quase bom”. O cliente dizia que o sistema funcionava, só que a casa demorava a estabilizar e a conta da luz tinha subido sem explicação. Foi aí que me lembrei do detalhe que quase ninguém verifica nos componentes de avac: o diagnóstico começa muitas vezes no ponto mais banal, aquele que não aparece em alarmes nem em gráficos.
Porque a maior parte das avarias não chega como um estrondo. Chega como uma rotina que ficou um pouco mais lenta, um compressor que trabalha mais tempo, uma unidade interior que “sopra” mas não entrega conforto. E, no meio disso, há um pormenor técnico que decide se estamos a corrigir a causa… ou só a mascarar o efeito.
O detalhe invisível que manda no resto
A verificação que muita gente salta é simples de dizer e chata de fazer: confirmar se o caudal de ar e a pressão estática (quando aplicável) estão dentro do que o fabricante pede - antes de ajustar carga, mexer em válvulas ou culpar o gás. Em prática, isto significa olhar para filtros, bateria/serpentina, turbina/ventilador, condutas (se existirem), grelhas e retornos, e medir o que está realmente a acontecer.
Quando o caudal está fora, tudo o resto fica “mentiroso”. As temperaturas lidas parecem erradas, o sobreaquecimento e o subarrefecimento podem enganar, e o sistema entra num ciclo de compensações: mais tempo ligado, mais ruído, mais consumo, mais desgaste. O conforto sofre primeiro; a fiabilidade sofre depois.
Há um padrão repetido: alguém faz um “afinamento” rápido porque a máquina não arrefece como devia, e a máquina até melhora por uns dias. Só que o problema era restrição de ar, não falta de refrigerante. O diagnóstico acertou na consequência e falhou na origem.
Sinais discretos de que o ar não está a passar como devia
Não precisa de ser um cenário dramático. Normalmente são pequenos indícios, espalhados, que só fazem sentido quando olhamos para o conjunto.
- Diferença de temperatura insuficiente entre retorno e insuflação, apesar de o equipamento estar a trabalhar “a sério”.
- Unidade interior mais ruidosa do que o habitual (assobios, turbulência, vibração).
- Zonas com correntes de ar desconfortáveis e outras “mortas”, especialmente em sistemas com condutas.
- Gelo na bateria ou tubos a suar onde antes não suavam.
- Queixas de “fica bom, depois piora”, como se o sistema nunca assentasse.
E há um clássico: filtro “aparentemente limpo” que, ao toque, está impregnado de gordura fina e pó, ou uma serpentina com uma película que só se vê com luz oblíqua. O olho passa, mas o ar não.
Como eu faço este diagnóstico sem perder uma tarde
Eu deixei de começar pelo refrigerante. Começo por garantir que o sistema consegue respirar, e só depois passo ao circuito frigorífico. Três passos “âncora” evitam que a visita vire caça ao tesouro.
1) Confirmar o caminho do ar
Abrir, ver e limpar o óbvio: filtros, retornos obstruídos por mobiliário, grelhas fechadas, ventilador sujo, dreno a pingar para a bateria, condensados a criar lama. Parece básico, mas é aqui que metade dos casos morre.
2) Medir, não adivinhar
Em vez de “parece que sopra pouco”, procurar número: pressão estática externa total em sistemas com conduta, velocidade/caudal quando possível, e temperatura de insuflação/retorno em regime estabilizado. Se não há condições para medir tudo, ao menos registar consistência: antes/depois de limpeza, antes/depois de mudança de velocidade do ventilador.
3) Só então entrar no circuito frigorífico
Ajustar carga, avaliar válvula de expansão/capilar, verificar sensores, ver comportamento de degelo (em bomba de calor) - mas com a certeza de que o lado do ar não está a sabotar as leituras.
Há dias em que isto parece “lento”. Mas é mais rápido do que voltar duas vezes, trocar peças por tentativa e acabar com um equipamento afinado para um problema que não existe.
“Quando o ar não circula, o sistema inteiro começa a contar histórias erradas - e nós acreditamos nelas porque os números parecem técnicos.”
O que muda quando este detalhe é verificado primeiro
A diferença nota-se em coisas pouco glamorosas: ciclos mais curtos e eficazes, menos picos de consumo, menos ruído, e um conforto mais estável. Em manutenção preventiva, isto prolonga a vida do compressor sem ninguém dar por isso - porque o compressor é sempre culpado até ao dia em que deixa de ser.
E também muda a conversa com o cliente. Em vez de “é preciso carregar gás”, passa a ser “o equipamento está a trabalhar contra uma restrição; vamos resolver a restrição e depois validar o resto”. É um diagnóstico que cria confiança porque explica o comportamento, não só a avaria.
| Ponto chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Caudal de ar primeiro | Filtros, bateria, ventilador, condutas e grelhas | Evita diagnósticos “falsos” no circuito frigorífico |
| Medir em vez de supor | Pressão estática/caudal e temperaturas estabilizadas | Menos trocas de peças por tentativa |
| Sequência certa | Ar → medições → refrigerante | Mais conforto, menos consumo, menos regressos |
FAQ:
- O que é mais comum: falta de gás ou falta de caudal de ar? Em muitas instalações, a falta de caudal (filtro, serpentina suja, grelhas fechadas, condutas mal dimensionadas) aparece mais vezes do que uma fuga relevante.
- Posso “resolver” aumentando a velocidade do ventilador? Às vezes ajuda, mas pode aumentar ruído e mascarar restrições. O ideal é remover a causa (sujidade/obstrução/dimensionamento) e só depois ajustar a velocidade.
- Que medições mínimas valem a pena numa visita curta? Temperatura de retorno e insuflação em regime estável e verificação física de filtros/serpentina/retornos. Em sistemas com conduta, pressão estática é ouro.
- Isto aplica-se a splits sem condutas? Sim. Mesmo sem condutas, filtro, bateria e turbina sujos reduzem caudal e distorcem o desempenho.
- Quando faz sentido chamar assistência especializada? Se houver gelo recorrente, disparos de proteção, cheiro a queimado, ruído anormal no compressor, ou suspeita de fuga. Aí o diagnóstico deve ser completo e instrumentado.
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