A maioria das pessoas só repara nos sistemas avac quando o ar fica pesado, o ruído aumenta ou a conta energética dispara. Mas há um detalhe mais silencioso que decide quase tudo: a qualidade de manutenção, aquela rotina que acontece (ou não) entre avarias. Em escritórios, hotéis, lojas e fábricas, é isto que separa um sistema que envelhece com dignidade de um que vai “andando” até ao dia em que deixa de andar.
Lembro-me de uma sala de reuniões onde o ar parecia sempre “cansado”, mesmo com a temperatura certa no visor. O técnico mediu caudais, trocou um filtro que já tinha perdido a forma e abriu uma bandeja de condensados com biofilme. No fim, não houve magia: houve limpeza, registos e um plano simples. O ambiente mudou mais pela consistência do que pela intervenção.
O que envelhece num sistema não é só a máquina - é o hábito
É fácil apontar o dedo ao equipamento: “a unidade já tem muitos anos”. Só que dois sistemas iguais, instalados no mesmo ano, podem ter destinos opostos. Um mantém-se estável, previsível, quase aborrecido. O outro entra num ciclo de pequenas falhas, desconforto e remendos.
O que muda é o tipo de atenção que recebem. Há manutenção que existe apenas para “cumprir calendário”, e há manutenção que lê o sistema como um organismo: pressões, caudais, sujidade acumulada, vibrações, tendência de consumo, queixas recorrentes. A diferença não se vê num relatório bonito; vê-se no comportamento ao longo do inverno e do verão.
O detalhe que decide: manutenção baseada em condição (com registos)
Chama-se de várias formas - manutenção por condição, por desempenho, “manutenção com olhos” - mas a ideia é uma só: não mexer porque sim, nem esperar que avarie. Medir, comparar com o normal daquele local e agir quando há sinais.
Não precisa de sensores caros para começar. Precisa de duas coisas que quase ninguém protege: um baseline (valores de referência) e registos consistentes. Sem isso, cada visita é como chegar a uma sala a meio de um filme e fingir que se percebe a história.
Sinais simples que, quando acompanhados, prolongam vida útil:
- Diferença de pressão em filtros a subir mais rápido do que o habitual
- Temperaturas de insuflação que “oscilam” sem razão aparente
- Drenos lentos e bandejas com sujidade recorrente
- Ventiladores com vibração crescente e correias a “comer” alinhamento
- Consumos a subir sem alteração de ocupação ou horário
“O sistema não falha de repente. Ele avisa baixinho durante semanas.”
Como tornar isto prático sem criar burocracia
A tentação é transformar a manutenção num dossier infinito. Depois ninguém lê, ninguém decide, e tudo volta ao improviso. O truque é reduzir a manutenção a âncoras pequenas, repetíveis, que cabem numa rotina real.
Três âncoras que fazem diferença sem drama:
- Checklist curta por visita (10–15 itens): filtros, drenos, estado de serpentinas, correias/acoplamentos, ruído anómalo, fugas visíveis, leituras-chave.
- Registo de 5 números fixos (sempre os mesmos): por exemplo, Tº insuflação, Tº retorno, ΔP filtro, consumo/horas, setpoint real vs pedido.
- Uma decisão por tendência: se um valor piora 3 visitas seguidas, há ação - não “vamos ver na próxima”.
E sim: há semanas em que não dá para fazer tudo. Seja honesto com isso. O sistema aguenta falhas pontuais; o que não aguenta é o padrão de adiar.
O que esta abordagem protege (e o que evita)
Quando a qualidade de manutenção é boa, a maioria dos problemas deixa de ser “urgência”. Vira planeamento. E isto muda o custo e o stress.
Protege:
- Conforto: menos zonas quentes/frias, menos queixas “sem causa”
- Energia: ventiladores e compressores trabalham menos tempo em esforço
- Higiene do ar: menos carga biológica em bandejas, serpentinas e condutas próximas
- Disponibilidade: menos paragens em dias críticos
Evita aquele cenário clássico: trocar componentes caros para compensar sujidade barata, ou ajustar setpoints para esconder falta de caudal, ou aumentar velocidade do ventilador para “ganhar” o que um filtro entupido roubou. Parece solução. É só dívida.
| Ponto chave | O detalhe | Benefício |
|---|---|---|
| Registos simples | 5 números, sempre os mesmos | Decisões por tendência, não por sensação |
| Baseline do edifício | “Normal” daquele espaço | Menos falsos alarmes e diagnósticos errados |
| Ação cedo | Intervir antes da avaria | Menos custo e menos indisponibilidade |
Se só puder melhorar uma coisa este mês
Escolha um sistema (o mais problemático ou o mais crítico) e faça duas semanas de observação séria. Não para “auditar” pessoas - para entender o comportamento. Fotografe filtros antes/depois, registe ΔP, verifique drenos e compare consumos com ocupação. Ao fim de pouco tempo, o sistema começa a contar-lhe a verdade: onde está a perder eficiência, onde está a acumular sujidade, onde está a ficar instável.
O equipamento envelhece de qualquer maneira. A questão é se envelhece com tolerância - ou com sobressaltos. E quase sempre, o detalhe decisivo não é a marca, nem a potência, nem o ano de fabrico. É a qualidade da manutenção, medida em hábitos pequenos que não aparecem no dia da inauguração, mas aparecem em todos os dias a seguir.
FAQ:
- A manutenção por condição é só para instalações grandes? Não. Dá para aplicar em pequeno com registos consistentes e uma checklist curta; o princípio é o mesmo.
- Com que frequência devo registar “os 5 números”? Idealmente em cada visita preventiva. Em períodos críticos (picos de verão/inverno), pode fazer sentido encurtar o intervalo.
- Trocar filtros “a tempo” chega? Ajuda, mas não chega. Serpentinas sujas, drenos contaminados e caudais desequilibrados podem estragar conforto e consumo mesmo com filtros novos.
- O que é um bom baseline? Valores típicos daquele edifício em funcionamento normal: temperaturas, ΔP, horas de operação e queixas. É a referência para detetar desvios reais.
- Como sei se a minha manutenção é “boa”? Menos avarias repetidas, consumos estáveis, respostas rápidas a tendências e relatórios que permitem comparar mês a mês - não apenas listas genéricas.
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