Entrei numa sala de máquinas num fim de tarde de Julho e senti logo a diferença: não era o barulho, era o ar. Os sistemas avac estavam a fazer o que deviam, mas o ajuste do sistema tinha sido feito “a olho” meses antes, e isso vê-se no conforto, nas contas e até no humor de quem ali trabalha. Em edifícios de escritórios, lojas, clínicas ou hotéis, este detalhe decide se o sistema é eficiente ou não porque transforma energia em conforto - ou em desperdício invisível.
Havia queixas vagas: “às 15h fica pesado”, “na receção é sempre frio”, “a sala de reuniões cheira a fechado”. Nada dramático. Só o tipo de desconforto que se normaliza… até chegar a fatura e alguém perceber que está a pagar para lutar contra o próprio edifício.
O detalhe que manda em tudo: o equilíbrio entre caudal de ar e carga térmica
Quando um sistema AVAC falha em eficiência, muitas vezes não é por falta de potência. É por falta de equilíbrio: demasiado ar onde não é preciso, pouco ar onde faz falta; setpoints “bonitos” mas desalinhados com a ocupação; e uma ventilação que trabalha como se o edifício estivesse cheio quando está a meio gás.
O detalhe é simples de dizer e chato de executar: equilibrar o sistema (air balancing e hidráulico, quando aplicável) e depois afinar o controlo para o uso real. Se o caudal não está certo, a melhor máquina do mundo só vai ser uma máquina cara a corrigir erros. E se o controlo não está certo, o equilíbrio perde-se em semanas.
Pense nisto como uma orquestra. Pode ter instrumentos excelentes, mas se os violinos estão a tocar mais alto do que o resto e o maestro está a seguir uma pauta errada, o resultado não é “potente”. É cansativo.
Os sinais discretos de que o ajuste está errado (mesmo que “pareça funcionar”)
A parte traiçoeira é que um sistema pode manter temperaturas aceitáveis e, ainda assim, ser ineficiente. O edifício aguenta. As pessoas queixam-se baixo. A energia dispara em silêncio.
Procure estes sinais, em conjunto, não isolados:
- Zonas com “microclimas” estáveis: uma sempre fria, outra sempre quente, independentemente do tempo lá fora.
- Ventiloconvectores/UTAs a ligar e desligar em ciclos curtos (parece nervosismo do equipamento).
- CO₂ a subir depressa em salas de reunião, mesmo com AVAC ligado.
- Portas interiores a bater ou a “colar” por diferenças de pressão (pressurização mal distribuída).
- Ruído de grelhas/difusores: não é só incómodo, é muitas vezes caudal mal repartido.
- Manutenção a trocar filtros “antes do tempo” porque a sujidade e as quedas de pressão não batem certo.
Um técnico experiente apanha isto em minutos. O problema é que muitas equipas habituam-se a apagar fogos: sobe um setpoint aqui, fecha-se um registo ali, e segue. O sistema vai ficando cheio de pequenos remendos até ninguém saber qual era a intenção inicial.
“Não é que o edifício peça muito. É o sistema que responde com força onde devia responder com precisão.”
Como fazer o ajuste do sistema sem cair no clássico “mexer até parecer melhor”
Há três âncoras práticas que tendem a salvar o processo. Não são truques: são ordem de trabalho.
1) Medir antes de mexer
Registe temperaturas, humidade, CO₂ (se aplicável), caudais/pressões e horários reais de ocupação. Uma semana de dados vale mais do que dez opiniões numa reunião. Se só houver orçamento para pouco, meça nas queixas recorrentes e numa zona “neutra” para comparação.
2) Equilibrar primeiro, automatizar depois
A automação não corrige distribuição errada. Primeiro: caudais nos terminais, registos, difusores, VAVs/caixas, e hidráulica em circuitos de água (bombas e válvulas). Depois: controlo. Caso contrário, o BMS fica a compensar eternamente - e a gastar energia a esconder o desequilíbrio.
3) Ajustar setpoints e horários ao mundo real
O setpoint perfeito num PDF torna-se mau quando o open space esvazia às 18h e o sistema continua em “dia”. Ajuste horários, estratégias de arranque/paragem, limites de temperatura e, quando existe, reset de pressão/temperatura (não operar sempre no pior cenário).
A regra de ouro é esta: cada mudança deve ter um motivo, um valor antes, um valor depois. Se não consegue explicar por que mexeu e o que esperava ver, está a fazer “tuning de sorte”.
O que muda quando acerta: conforto mais estável, menos picos, menos guerra
Quando o equilíbrio e o controlo estão alinhados, o edifício deixa de parecer temperamental. As salas deixam de ser “loteria”. O ar fica menos pesado porque a ventilação passa a corresponder à ocupação, e a temperatura estabiliza sem aquele vaivém que cansa.
Também muda algo menos óbvio: a manutenção. Filtros passam a durar o que devem, válvulas deixam de trabalhar no limite, e os equipamentos param de viver em extremos. Eficiência não é só kWh: é menos desgaste por esforço inútil.
E há um efeito psicológico real. Quando o ambiente deixa de distrair, as pessoas deixam de falar do ar. Isso é um indicador brutal de sucesso, porque o conforto térmico raramente dá elogios - só dá queixas.
| Ponto-chave | O que verificar | O que ganha |
|---|---|---|
| Equilíbrio de caudais | Medições em grelhas/VAVs e pressões por zona | Conforto consistente e menos ruído |
| Controlo alinhado com ocupação | Horários, setpoints e resets | Menos picos de consumo |
| Qualidade do ar | CO₂ e renovações em espaços críticos | Menos “ar pesado”, mais foco |
FAQ:
- O que é “equilibrar” num sistema AVAC? É garantir que cada zona recebe o caudal de ar (e/ou caudal de água) previsto para a carga e ocupação reais, sem excessos nem faltas.
- Se eu baixar o setpoint, não fico logo mais confortável? Às vezes sim, por pouco tempo. Mas se o problema for distribuição ou controlo, baixar setpoints só aumenta consumo e pode criar desconforto noutros pontos.
- Qual é o erro mais comum no ajuste do sistema? Ajustar parâmetros no BMS para “calarem” queixas sem medir caudais e sem corrigir o equilíbrio. O sistema parece melhorar por dias e degrada depois.
- Dá para melhorar eficiência sem trocar equipamentos? Muitas vezes, sim. Um bom equilíbrio + afinação de horários, resets e ventilação por procura pode reduzir consumo e queixas sem CAPEX pesado.
- Com que frequência devo rever o ajuste? Pelo menos anualmente, e sempre que houver alterações de layout, ocupação, horários ou obras que mexam em paredes, tetos e difusores.
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