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Ar condicionado em escritórios: o detalhe que quase todos ignoram

Pessoas numa reunião de trabalho numa sala, homem de pé junto à janela, gesticulando enquanto fala aos outros.

Entrei numa sala de reuniões gelada e fiz o que toda a gente faz: subi um pouco o ar e continuei a viver. Só que os sistemas hvac em escritórios, pensados para o nosso uso interno diário, têm um ponto fraco que passa quase sempre despercebido - e é aí que começam as dores de cabeça, a garganta arranhada e aquela sensação de “ar pesado” que ninguém consegue explicar bem. O curioso é que o problema raramente é “estar muito frio”. É outra coisa, mais pequena e mais teimosa.

Há um momento muito típico: a equipa toda a reclamar do ar condicionado, alguém tapa a grelha com uma folha A4, e por uns dias parece resolvido. Até deixar de parecer. O desconforto volta, os cheiros reaparecem, e a produtividade cai de mansinho, como poeira a acumular num canto.

O detalhe ignorado quase sempre não é a temperatura. É o ar que entra na sala e o caminho que ele faz.

O que se perde quando tratamos o ar condicionado como um “botão”

Muitos escritórios usam o ar condicionado como se fosse um interruptor: ligar, desligar, aumentar, baixar. Só que um sistema de climatização é mais parecido com um organismo: precisa de ar “novo”, precisa de expelir o ar “velho”, e precisa de equilíbrio entre caudal, filtragem e humidade. Quando esse equilíbrio falha, o corpo sente primeiro, antes de a cabeça perceber.

O resultado é aquele quadro familiar: gente com casacos no verão, narizes secos, olhos a arder ao fim da tarde, e um cansaço que parece desproporcional ao trabalho feito. E, no meio disto, a conversa fica sempre presa no termóstato, como se fosse o único culpado.

A verdade é que dá para ter 22 °C “certinhos” e um ambiente péssimo. E dá para ter 24 °C e uma sala confortável, desde que o ar esteja a ser renovado como deve ser.

O detalhe que quase todos ignoram: a renovação de ar (e o CO₂ a subir em silêncio)

O “detalhe” é simples de dizer e fácil de ignorar: quantas vezes o ar da sala é realmente renovado. Em muitos escritórios, por poupança ou por configuração, o sistema recircula demasiado ar do próprio espaço e traz pouco ar exterior. A sala fica fresca, sim, mas também fica “usada”.

Quando o ar não é renovado, o CO₂ sobe. Não é drama hollywoodiano, é só fisiologia: mais gente a respirar numa sala fechada, mais CO₂ acumulado. E com ele vêm queixas que parecem vagas, mas são muito consistentes: sonolência, dificuldade de concentração, dor de cabeça ao fim de 2–3 horas, irritabilidade leve.

Há ainda um efeito secundário que ninguém associa logo: quando o ar exterior entra pouco, os odores ficam mais tempo. A sala não cheira “a suor” de forma óbvia; cheira a presença humana, a comida do almoço, a tapete, a impressora. Uma espécie de mistura morna que o frio não apaga.

O sinal prático (sem instrumentos caros)

Se numa sala de reuniões com 8–12 pessoas a sensação de cansaço aparece sempre por volta da mesma hora, e melhora mal se abre a porta ou uma janela, isso é um indício forte. Não prova tudo, mas costuma apontar na direção certa: falta de ar novo, não falta de frio.

Porque isto acontece em escritórios (mesmo nos “bons”)

Há três razões comuns e muito pouco glamorosas:

  1. Poupança energética mal calibrada. Reduz-se a entrada de ar exterior para não “gastar” a climatizar esse ar, e a qualidade do ar paga a conta.
  2. Ventilação desligada fora de horas. O escritório abre, liga-se o frio, mas a ventilação/renovação não arranca cedo o suficiente para “lavar” o ar acumulado.
  3. Filtros e manutenção tratados como detalhe. Filtro saturado não é só poeira: altera caudais, aumenta ruído, piora cheiros e pode espalhar partículas em vez de as reter.

E depois há o clássico: o layout muda, metem-se divisórias, fecham-se grelhas porque “está a bater”, e o ar deixa de circular como estava previsto. O sistema não sabe que a empresa reorganizou a planta; ele continua a empurrar ar para onde já não faz sentido.

O que fazer amanhã de manhã (sem entrar em guerras de termóstato)

A parte boa é que a solução começa com passos pequenos, muito mais “operacionais” do que dramáticos.

  • Marcar duas salas-problema (a que dá sempre sono e a que cheira sempre a fechado) e observar padrões: horas, número de pessoas, portas fechadas, queixas repetidas.
  • Pedir uma verificação de caudais e renovação, não só “ver se está a arrefecer”. A pergunta certa é: quanto ar novo está a entrar por hora, e está a entrar onde há pessoas?
  • Rever filtros e calendários de manutenção com registos visíveis. “Mudámos há uns meses” não é um plano; é uma memória.
  • Evitar tapar grelhas com improvisos. Se está a “bater” em alguém, o ajuste deve ser de difusores, defletores, caudal ou setpoints por zona, não com papel e fita.

Se houver abertura para um gesto simples e objetivo, um medidor de CO₂ (mesmo portátil) durante uma semana em salas de reunião costuma acabar com discussões abstratas. É difícil argumentar com um gráfico que sobe sempre que a porta fecha.

O conforto real: temperatura, humidade e fluxo (não só “frio”)

Muita gente descreve desconforto como “está frio”, mas está a falar de outra coisa: corrente de ar direta, humidade baixa, ou ar carregado. Um escritório pode estar a 23 °C e, se houver uma corrente contínua na nuca, vai parecer um frigorífico. Pode estar a 21 °C e, com difusão bem distribuída e ar renovado, vai parecer neutro.

Há um ponto que passa despercebido: o ar demasiado seco. Em muitos edifícios, a humidade cai no inverno com aquecimento e ventilação, e no verão com arrefecimento prolongado. A pele e as mucosas ressentem-se, e o cérebro interpreta isso como “ambiente agressivo”. Não é frescura; é fisiologia outra vez.

“O escritório não precisa de ser mais frio. Precisa de ser mais respirável”, disse-me uma técnica de manutenção depois de resolver uma sala onde toda a equipa vivia com pastilhas para a garganta.

Checklist rápido: o que vale a pena pedir ao responsável do edifício

  • Confirmar horários de ventilação (arranque antes da ocupação e purga no fim do dia, quando aplicável).
  • Verificar percentagem de ar novo e se está a ser limitada por configuração.
  • Rever estado dos filtros e queda de pressão (um filtro “sujo mas ainda a dar” costuma ser o início de metade das queixas).
  • Confirmar se há zonas desequilibradas por alterações de layout, portas corta-fogo sempre fechadas, ou grelhas obstruídas.
  • Ajustar difusão para eliminar jatos diretos sobre postos de trabalho.

Às vezes a diferença entre “este escritório dá-me sono” e “aqui trabalha-se bem” é uma coisa tão pouco cinematográfica como uma caixa de ventilação a funcionar no horário certo.

Porque este detalhe muda a produtividade mais do que parece

Quando a renovação de ar está bem afinada, as pessoas deixam de falar do ar condicionado. É esse o sinal. O ambiente some, no bom sentido: não puxa pela atenção, não irrita, não obriga a casacos, não dá vontade de abrir a janela só para “respirar”.

E isso, num espaço de uso interno onde passamos dias inteiros, vale mais do que perseguir o número perfeito no visor. O detalhe ignorado não é um capricho técnico. É o que separa um escritório “climatizado” de um escritório habitável.

Ponto-chave O que observar Ganho prático
Renovação de ar/CO₂ Sono e dor de cabeça em salas cheias Mais foco e menos queixas difusas
Difusão do ar Jato direto sobre pessoas Conforto sem “guerra do termóstato”
Filtros e caudais Cheiros e ar “pesado” Melhor qualidade do ar e menos partículas

FAQ:

  • O ar condicionado “seca” o ar ou é mito? Pode secar, sobretudo com funcionamento prolongado e ventilação, dependendo do sistema e do clima. Se há garganta seca e olhos a arder, vale a pena avaliar humidade e caudais, não só a temperatura.
  • Abrir a janela resolve? Ajuda a curto prazo porque renova o ar, mas pode criar desequilíbrios (correntes, carga térmica, ruído). O ideal é garantir renovação controlada pelo sistema.
  • Se a sala está fria, como é que o problema pode ser falta de ventilação? Temperatura e qualidade do ar são coisas diferentes. Pode haver ar recirculado a arrefecer bem, mas pouco ar exterior a entrar - e o CO₂/odores acumulam.
  • Filtros sujos causam cheiros? Podem contribuir, sim, e também alteram caudais e eficiência. Troca e manutenção regulares reduzem “ar pesado” e queixas respiratórias.
  • Qual é o melhor primeiro passo sem obras? Verificar horários de ventilação, estado dos filtros e ajustar difusores para eliminar correntes diretas. Se possível, medir CO₂ em salas de reunião durante alguns dias para confirmar padrões.

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